Roberto Pires, o artesão dos sonhos
Por André Setaro
Se o cinema baiano não existisse, Roberto Pires o teria inventado, escreveu Glauber Rocha em sua Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. Cineasta e inventor (a lente anamórfica – semelhante ao cinemascope – com a qual filmou Redenção foi criada por ele), Pires é, a rigor, o fundador da cinematografia baiana, ainda que, antes dele, há o pioneirismo de Alexandre Robatto, Filho (Entre o mar e o tendal, entre outros curtas), mas o longametragismo somente tem início pela persistência, tenacidade, teimosia, de Roberto Pires em realizar o seu sonho: fazer um filme de longa metragem na Bahia. Iniciado em 1956, Redenção passou três anos para ser concluído, dados os inúmeros obstáculos e a falta de recursos. Mas em 1959, em noite de gala, foi, finalmente apresentado na tela do cinema Guarany.
Artesão de sonhos, como define o título de um documentário de seu filho, Petrus, que o dirigiu em parceria com Paulo Hermida, Pires pode ser considerado um diretor singular do cinema brasileiro, um construtor de narrativas com eficiência dramática, que soube, como poucos, dar, a elas, uma sólida estrutura, como revelam A grande feira (1961), Tocaia no asfalto (1962), Crime no Sacopã (1963), A máscara da traição (1967), entre outros.
Roberto Pires era um grande artesão, um realizador notável, com profundo sentido do espetáculo cinematográfico, da sua mise en scène. Há dois momentos em A grande feira que bem provam a sua competência e o seu engenho e arte. Quando o marinheiro interpretado por Geraldo D’El Rey leva, para o quarto, após a briga no cabaré de Zazá, Luiza Maranhão, e, com ela, tem uma relação carnal, que é vista por elipse, com a câmera sob a cama, e os sapatos dos dois amantes que caem no chão. Um outro momento de cinema mesmo, e neste mesmo filme, é aquele no qual Geraldo e Helena Ignez passeiam de automóvel pela orla, pelo Dique do Tororó, descem a Ladeira da Montanha e se encontram, finalmente, numa lancha, que, no último plano, se desloca sozinha pelo mar. A partitura, do maestro Remo Usai, muito contribuiu para a criação atmosférica.
Em Tocaia no asfalto, também, temos dois momentos magistrais nas sequências da Igreja de São Francisco, quando Agildo Ribeiro não consegue cometer o assassinato, e a do cemitério do Campo Santo. São sequências que demonstram a artesania impecável de Roberto Pires, que pode ser considerado um dos mais engenhosos artesãos do cinema brasileiro em todos os tempos.
Pires conhecia tudo de cinema. A cenografia arranjada de Abrigo nuclear é um exemplo perfeito de sua engenhosidade, a aproveitar materiais de sucata para o cenário de science-fiction, assim como a máscara, construída por ele, de A máscara da traição, um thriller seguro e dinâmico.
Falar de Roberto Pires é falar de um cinema baiano (e brasileiro) que conseguiu encantar plateias. Um verdadeiro mestre em seu ofício de entreter e sonhar.
A Grande Feira

Roberto Pires, BA, 94’, P&B, 35mm, 1961
Uma empresa imobiliária ameaça de despejo os feirantes de Água de Meninos, em Salvador, que se organizam para resistir. Um marinheiro se vê envolvido nessa luta e se divide entre o amor de Maria da Feira, uma mulher que mora na feira, e de Ely, moça da alta sociedade.
Contato: Iglu Filmes – Petrus Pires (iglufilmes@gmail.com / (71) 34949209 / 92582996)
Sessões:
QUINTA-FEIRA (31/10)
PRAÇA DA ACLAMAÇÃO – CENTRO – CACHOEIRA
19h30 – Sessão de Abertura/Homenagem a Roberto Pires I
SEXTA-FEIRA (01/11)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – GLAUBER ROCHA SALA 2
18h45 – Homenagem a Roberto Pires I
Memorando A Grande Feira

Paulo Hermida, BA, 25’, Cor e P&B, Digital, 2013
Quatro personagens que participaram da equipe do filme “A Grande Feira” de 1961, revisitam suas memórias, nos contando histórias e detalhes surpreendentes do longa produzido há mais de cinco décadas. Ao lado da tela de projeção, eles se vêem quando jovens em instantes que ainda não faziam parte do passado.
Contato: Iglu Filmes – Petrus Pires (iglufilmes@gmail.com / (71) 34949209 / 92582996)
Sessões:
QUINTA-FEIRA (31/10)
PRAÇA DA ACLAMAÇÃO – CENTRO – CACHOEIRA
19h30 – Sessão de Abertura/Homenagem a Roberto Pires I
SEXTA-FEIRA (01/11)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – GLAUBER ROCHA SALA 2
18h45 – Homenagem a Roberto Pires I
Redenção

Roberto Pires, BA, 56’, P&B, 35mm, 1957
Um psicopata estuprador é contido por dois jovens fazendeiros, um dos quais está envolvido com a polícia e que, ao proteger uma jovem ameaçada, encontra a “redenção”.
Contato: Iglu Filmes – Petrus Pires (iglufilmes@gmail.com / (71) 34949209 / 92582996)
Sessões:
DOMINGO (03/11)
SALA WALTER DA SILVEIRA
19h – Homenagem a Roberto Pires III
QUARTA-FEIRA (06/11)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – GLAUBER ROCHA SALA 2
14h40 – Homenagem a Roberto Pires III
Tocaia no Asfalto

Roberto Pires, BA, 100’, P&B, Digital, 1962
A história de um jovem político idealista de Salvador é narrada em paralelo à de um matador que chega do interior com a missão de eliminá-lo. O coronelismo, a violência e a política da época são temas centrais do filme.
Contato: Iglu Filmes – Petrus Pires (iglufilmes@gmail.com / (71) 34949209 / 92582996)
Sessões:
SÁBADO (02/11)
SALA WALTER DA SILVEIRA
17h – Homenagem a Roberto Pires II
SEGUNDA-FEIRA (04/11)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – GLAUBER ROCHA SALA 3
18h50 – Homenagem a Roberto Pires II
