Um homem que amava os filmes e nós que o amávamos tanto
Por João Carlos Sampaio
Carlos Oscar Reichenbach Filho, ou Carlos Reichenbach, como assinava seus filmes, ou simplesmente “Carlão”, como era conhecido no meio cinematográfico e entre os amigos, amava o cinema e as pessoas. Com a gente que amava e que ia abraçando no seu percurso, fazia cinema. Fazendo cinema, espalhava amor, manifesto no profundo respeito pelo outro.
Talvez seja piegas e desaconselhável apresentar o cineasta assim, mas Carlão também não gostava de formalidades. Seu apetite por cinema e o prazer pela convivência não cabiam nos manuais de etiqueta, embora fosse extremamente gentil, dócil e amigo do bom papo. Não há quem milite no cinema que não tenha, ao menos, uma história dele ou com ele para contar.
Este desejo de uma vivência compartilhada de cinema está muito bem impressa nos seus filmes, sempre realizados com uma preocupação imensa com o processo, pautado pela ética, pelo afeto e por uma verdade que emerge de gente como ele, devotada às causas humanas.
Gaúcho, radicado desde a infância em São Paulo, deu seus primeiros passos com a turma da “Boca do Lixo”, no final dos anos 1960. Nunca escondeu sua admiração por cineastas como Luiz Sérgio Person e Roberto Santos, nem a influência de “pensadores”, como Paulo Emílio Salles Gomes e Décio Pignatari.
Suas referências, entretanto, amparavam-se no cinema independente e visceral de todo o mundo. Por anos à frente das noitadas da Sessão Comodoro – aliás, “Comodoro” é outra alcunha carinhosa, atribuída por seus amigos mais jovens -, ajudou na formação do olhar das novas gerações e se manteve sempre contaminado por novos e “malditos” filmes.
Entre suas obras mais queridas, estão fitas como Lilian M: Relatório Confidencial (1974), Amor, Palavra Prostituta (1980), Filme Demência (1985), Anjos do Arrabalde (1986), Alma Corsária (1993), Dois Córregos (1999) e Garotas do ABC (2004). Nenhuma delas próxima da unanimidade, mas todas igualmente defendidas, por diferentes interlocutores/seguidores.
Carlão é uma instituição do cinema brasileiro, que deixou a todos entristecidos, morrendo, no ano passado. Menos mal que ele continua e vai continuar durante muito tempo por aqui.
Alma Corsária

Carlos Reichenbach, SP, 111’, 35mm, 1993
A festa de lançamento do livro “Sentimento Ocidental” reúne os amigos Rivaldo Torres (Bertrand Duarte) e Teodoro Xavier (Jandir Ferrari) na Pastelaria Espiritual. Enquanto uma diversidade de personagens comparece ao evento, incluindo, entre outros, o executivo editorial Magalhães (Jorge Fernando), a sua virginal noiva Verinha (Flôr), e um suicida (Abrahão Farc) resgatado por Torres no Viaduto do Chá, somos levados ao passado para acompanhar a evolução da amizade entre os dois protagonistas, acompanhando o desenvolvimento do subtexto sociocultural (entre outros, a São Paulo dos movimentos contraculturais dos anos 60). Quando a festa, embalada por muitos momentos de humor, termina, um anjo em forma de mulher aparece para selar o destino de Torres.
Contato: Sara Silveira (sara@dezenove.net)
Sessões:
QUINTA-FEIRA (31/10)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – GLAUBER ROCHA SALA 3
20h30 – Sessão de Abertura/Homenagem a Carlos Reinchenbach I
SEXTA-FEIRA (01/11)
CAHL – CENTRO DE ARTES, HUMANIDADES E LETRAS/ UFRB
16h30 – Homenagem a Carlos Reichenbach I
Dois Córregos - Verdades Submersas no Tempo

Carlos Reichenbach, SP, 112’, 35mm, 1999
Ana Paula (Beth Goulart) viaja a Dois Córregos, no interior de São Paulo, para recuperar a casa de campo que herdou dos pais, falecidos recentemente, e que está ocupada por grileiros. Constrangida com a indiferença de seu advogado, e com a rispidez da ação policial, Ana lembra-se da última vez que esteve ali, no final dos anos 60, época em conheceu, acompanhada da colega de escola Lydia (Luciana Brasil), o tio Hermes (Carlos Alberto Riccelli), um ativista de extrema esquerda que, depois de anos de exílio, buscava oficializar o seu retorno ao país. Apesar das tensões e das diferenças, o relacionamento entre os três torna-se mais próximo e emotivo, o que revela, para as meninas, vários momentos de descoberta da sensualidade, do afeto e da melancolia.
Contato: Sara Silveira (sara@dezenove.net)
Sessão:
SEGUNDA-FEIRA (04/11)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – GLAUBER ROCHA SALA 3
15h20 – Homenagem a Carlos Reichenbach IV
Filme Demência

Carlos Reichenbach, SP, 90’, 35mm, 1986
Depois que a indústria de cigarros que herdou da família vai à falência, Fausto (Ênio Gonçalves) entra em crise e passa a confrontar-se com suas utopias, desejos e pesadelos. Ele rompe com Doris (Imara Reis), sua esposa infiel, rouba um revólver, e vaga pela noite de São Paulo em busca de Mira-Celi, seu paraíso imaginário. Ao longo do trajeto, Fausto encontra personagens emblemáticos de sua existência: o amigo de infância Wagner (Fernando Benini), a amante suburbana Mércia (Maria Pestana), o visionário guru Honduras (Orlando Parolini), e, sobretudo, Mefisto (Emílio Di Biasi), que surge transvestido de várias formas. Impulsionado por iluminações, protagonista ruma a um caminho de profunda autodescoberta.
Contato: Eder Mazini (edermazini@prefeitura.sp.gov.br)
Sessões:
DOMINGO (03/11)
CAHL – CENTRO DE ARTES, HUMANIDADES E LETRAS/ UFRB
14h – Homenagem a Carlos Reinchenbach III
TERÇA-FEIRA (05/11)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – GLAUBER ROCHA SALA 3
15h35 – Homenagem a Carlos Reichenbach III
Garotas do ABC

Carlos Reichenbach, SP, 125’, 35mm, 2004
No ABC de São Paulo, região de fábricas têxteis e metalúrgicas, um grupo de operárias vive seu cotidiano de intenso trabalho, sonhos e ilusões. Paula Nélson (Natália Lorda), uma espécie de madre superiora na relação que estabelece com as colegas, é assediada por um líder sindical; Antuérpia (Vanessa Alves) tenta, aos 38 anos, iniciar-se na profissão de tecelã; a casta Suzana (Luciele Di Camargo) é apaixonada pelo patrão. Aurélia (Michelle Valle), operária negra, bela e atrevida, fã de Arnold Schwarzeneger, namora Fábio (Fernando Pavão), jovem enturmado em um grupo neonazista liderado pelo advogado Salesiano de Carvalho (Selton Mello). O conflito entre a gangue racista e as demais personagens culmina em briga durante uma festa na casa de shows Clube Democrático.
Contato: Sara Silveira (sara@dezenove.net)
Sessão:
QUINTA-FEIRA (07/11)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – GLAUBER ROCHA SALA 3
13h – Homenagem a Carlos Reichenbach V
Lílian M.: Relatório Confidencial

Carlos Reichenbach, SP, 90’, 35mm, 1975
Seduzida por um mascate falador, Maria (Célia Olga Benvenutti) abandona o marido lavrador e os dois filhos pequenos, e, após um trágico acidente de carro, segue sozinha para tentar a vida na cidade de São Paulo. Perdida na metrópole, ela é presa até que uma assistente social arruma-lhe um emprego na casa do industrial Braga (Benjamin Cattan). Os dois tornam-se amantes, e Maria é rebatizada de Lilian, nome da mãe de Braga. No trágico caminho da miséria ao luxo, Lilian envolve-se com excêntricos tipos humanos: o autodestrutivo filho de Braga, um industrial alemão que financia a repressão, um grileiro de terras falastrão, um detetive boçal, uma rumbeira e cafetina, um bandido tuberculoso, e, finalmente, um submisso funcionário público e sua mórbida irmã.
Contato: Lygia Reichbach (ly.reichenbach@gmail.com)
Sessão:
SÁBADO (02/11)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – GLAUBER ROCHA SALA 3
21h35 – Homenagem a Carlos Reichenbach II
