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      <title>Beleza Adormecida</title>
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      <pubDate>Mon, 14 May 2012 11:07:33 -0300</pubDate>
      <description>&lt;a href=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Entradas/2012/5/14_Beleza_Adormecida_files/Beleza%20Adormecida2.jpg&quot;&gt;&lt;img src=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Media/object002_3.jpg&quot; style=&quot;float:left; padding-right:10px; padding-bottom:10px; width:182px; height:128px;&quot;/&gt;&lt;/a&gt;Por Rafael Carvalho &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Se o título original do filme remete à fábula da Bela Adormecida, esse trabalho da novata Julia Leigh, concorrente da competição oficial no Festival de Cannes ano passado, nada tem de inocente, muito embora a protagonista faça crer que existe muito de banal e desimportante na sua função de prostituta de luxo. É um contraponto irônico interessante entre a pureza feminina e aquilo que de mais provocante e estranho pode existir nos impulsos e necessidades sexuais.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Isso porque Lucy (Emily Browning, a mesma que insinuou as curvas pueris em Sucker Punch – Mundo Surreal) começa a trabalhar num serviço de prazeres sexuais bastante peculiar. Induzida ao sono por um poderoso remédio (aparentemente natural), ela é deixada na cama à mercê dos clientes, geralmente homens mais velhos, que se entregam a todo tipo de fantasia. Mas “sem penetração”, como costuma frisar sua cafetina (Rachael Blake). Existe aí, portanto, um estado de pureza imaculada que o filme deixa bem exposto, tanto no tratamento que a protagonista recebe, quanto pelo aspecto visual e estético da própria obra. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Estão lá a fotografia limpa, a direção de arte calculada, a quase ausência de trilha sonora (música surge em alguns momentos em que impõe uma certa tensão no ar), os planos mais demorados com movimentos de câmera bem discretos e leves. A própria Browning carrega um corpo que exala jovialidade, de pele branquinha e aparência angelical.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Ou seja, tudo é muito asséptico, limpo, puro. Não há sujeira, nada que manche uma história marcada pela luxúria sexual. É como se o filme se revestisse de uma própria aura de castidade. O grande entrave, no entanto, é que a partir daí, o filme alcança uma certa atmosfera de torpor, de dormência, o que desemboca num perigoso vazio narrativo. É muito difícil, por exemplo, se importar com os personagens e com as consequências de seus atos, justamente porque tudo soa muito desimportante e frio.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Vale lembrar aqui um momento curioso, quando da primeira recepção que Lucy faz (na casa-bordel?), sendo possível perceber no centro da sala duas estátuas de pessoas curvadas de cócoras e de costas para a câmera. Essas imagens lembram bastante o iconoclástico Saló ou Os 120 Dias de Sodoma, referência temática da exploração da perversão sexual, mas que fica somente no tema porque Beleza Adormecida está longe da provocação e agudeza do filme de Pasolini.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Há ainda certa suspensão na forma como muita coisa é deixada em mistério (a origem da personagem, por que ela queima o dinheiro ganho com os programas, o relacionamento secreto com um rapaz aparentemente com problemas mentais, além de suas aventuras com homens que conhece pelo caminho, seja em outros trabalhos mais “normais”, seja em bares caros e luxuosos). &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Mas no fundo, é desapontador como um filme que deixa tanta coisa no ar, tantas perguntas em aberto (o que geralmente aguça curiosidade e pode ganhar efeitos dramáticos interessantes de interpretações possíveis), acaba atingindo a si próprio pela falta de envolvimento que o filme estabelece com o espectador. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Além de tudo, é uma sem conflito definido, não existe uma motivação ali perceptível que faça a história de Lucy seguir adiante. Por mais que se esforce em parecer forte (e há algumas imagens bem explícitas no filme), a história acaba soando desinteressante e anódina. Se não existe algo de relevante que realmente sustente a atenção ao fio narrativo da obra, busca-se em Beleza Adormecida uma solidez que nunca se sustenta. Permanece, então, distante, frio, sem tesão, sem algo que nos movimente. Sem beleza.&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Inquietos</title>
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      <pubDate>Mon, 14 May 2012 11:05:04 -0300</pubDate>
      <description>&lt;a href=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Entradas/2012/5/14_Inquietos_files/restless.jpg&quot;&gt;&lt;img src=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Media/object001_4.jpg&quot; style=&quot;float:left; padding-right:10px; padding-bottom:10px; width:182px; height:128px;&quot;/&gt;&lt;/a&gt;Por Rafael Saraiva&lt;br/&gt;A sensação ruim deixada ao final da sessão de Inquietos nem é tanto decorrente da qualidade do filme em si. Afinal, o diretor Gus Van Sant, embora muito talentoso, já deu seus tropeços anteriormente na carreira (remake de Psicose, alguém?). Mas o que incomoda mesmo é ele ter aceitado participar de um projeto convencional, mas tão pretensiosamente alternativo quanto esse. Em tempos em que Lana del Rey é taxada como sendo um &amp;quot;típico produto popular construído e configurado para o público indie&amp;quot;, não pretendo entrar em méritos equivalentes ao analisar Inquietos - mas sem dúvidas, falando apenas do produto final, confesso que acho muito melhor ouvir a cantora americana pelo resto dos meus dias do que assistir a Inquietos mais algumas vezes.  Porque não basta Annabel (Mia Wasikowska) e Enoch (Henry Hopper) terem suas histórias de vida intrinsecamente relacionadas com a morte (ela, por sua doença; ele, pelo acidente que vitimou seus pais), o roteiro parece querer reforçar essa característica - talvez mirando o mais desatento dos espectadores - a todo momento: quando eles conversam sobre insetos, é sobre o inseto que se alimenta e faz ninho sobre cadáveres. Se eles marcam um encontro, ou é em um cemitério, em um velório ou no necrotério. E se eles vão celebrar uma data juntos, obviamente teria que ser o Halloween. Uma insistência que só ressalta a falta de competência do roteirista em tratar outras facetas do relacionamento dos dois, apostando que apenas essas excentricidades irão torná-los modernos e descolados aos olhos do publico.  Mas não para por aí. Se as atitudes da Annabel são compreensíveis pela situação em que se encontra, o mesmo não pode ser dito de Enoch. Toda sua revolta e falta de trato com as outras pessoas só servem para ressaltar o quanto o personagem é mimado e arrogante, tornando-se rapidamente um tipo fácil de antipatizar (o jeito como, durante uma discussão, ele enche a boca para falar que ficou morto por três minutos, é vergonhoso). E as relações do casal com suas respectivas famílias são bem representativas desse descompasso: enquanto a garota tem um núcleo até interessante, principalmente por causa de sua irmã Elizabeth (a pessoa com mais pé no chão em todo o longa), Enoch tem uma relação completamente mal construída com sua tia Mabel (Jane Adams), ilustrada por sequências de cenas repletas de clichês, como uma manjada discussão à mesa de jantar. Pela nulidade dessa relação, resta ao rapaz passar seu tempo com seu melhor amigo...o &amp;quot;fantasma&amp;quot; Hiroshi. Nada contra um elemento fantástico na história, que poderia ser até um meio do filme tentar ousar e surpreender em suas pretensões, mas ele acaba sendo utilizado apenas do modo mais óbvio possível (dar vazão aos pensamentos do Enoch e só).  E com um roteiro tão ruim em curso, os envolvidos em Inquietos parecem contaminados com a mediocridade vigente. Gus Van Sant demonstra extremo desinteresse (ou preguiça) ao apostar em técnicas batidas como a montagem de relacionamento feliz para retratar um salto temporal, e erra a mão feio em cenas cafonas como o cĺímax. Isso sem contar a absurda ideia de, logo após uma menção à Nagasaki, colocar na tela uma imagem da bomba explodindo, como se apenas a citação não fosse suficiente para que a plateia a entendesse. Já trilha do Danny Elfman parece feita sob medida com intenção de emocionar, mas sem sucesso. E o elenco é encabeçado pela decepcionante atuação do Henry Hopper, que quando é exigido para fazer algo mais do que ficar com a cara emburrada, perde totalmente a linha, como na canhestra cena em que invade a sala do oncologista aos berros de &amp;quot;Make her Better!&amp;quot;. Mas salvando-se disso tudo está a cada vez mais promissora Mia Wasikowska, que no meio disso tudo, ao menos consegue fazer de Annabel uma pessoa doce e, da sua aceitação da morte, uma decisão corajosa e iluminada. Mas está longe conseguir redimir sozinha a obra inteira.  Pior do que &amp;quot;apenas&amp;quot; ser ruim, o maior erro de Inquietos é essa aparente pretensão que ostenta, tentando sem sucesso dar contornos de seriedade e superioridade a um relacionamento essencialmente infantil, envolto em uma estética alternativa de boutique. Um daqueles casos em que uma simples decepção é transformada em antipatia patológica.</description>
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      <title>Protegendo o Inimigo</title>
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      <pubDate>Mon, 14 May 2012 11:03:25 -0300</pubDate>
      <description>&lt;a href=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Entradas/2012/5/14_Protegendo_o_Inimigo_files/safehouse.jpg&quot;&gt;&lt;img src=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Media/object000_6.jpg&quot; style=&quot;float:left; padding-right:10px; padding-bottom:10px; width:182px; height:128px;&quot;/&gt;&lt;/a&gt;Por Rafael Saraiva&lt;br/&gt;Denzel Washington é um daqueles atores que chegou em um patamar na carreira onde apenas seu nome já é garantia de sucesso para um projeto. E sendo tão rentável, é de se esperar que vários produtores de Hollywood se aproveitem disso, apostando em filmes que se apoiam tão somente no talento e carisma do astro. E Protegendo o Inimigo é mais um nessa linha - o que não necessariamente significa um filme ruim, mas deixa aquele gosto de que Denzel poderia estar fazendo algo mais desafiador.  E é curioso notar como, de uma década pra cá, esses projetos que giram em torno do ator compartilham características em comum. Protegendo o Inimigo parece uma mistura de Chamas da Vingança (muita ação, câmera frenética, cortes rápidos, visual bem cru e granulado em um país do terceiro mundo) com Dia do Treinamento (Denzel interpretando um anti-herói veterano e perigoso, que é obrigado a passar um tempo com um novato). Um terreno ao mesmo tempo conhecido e perigoso, pois é fácil se acomodar com esse tipo de escolha - e infelizmente é o que ocorreu aqui. Denzel Washington sabe do carisma que tem (vide a cena que ele enfim faz a barba, corta o cabelo e, com sua aparência &amp;quot;clássica&amp;quot;, dá um sorriso) e sua presença na tela é marcante, mas é visível como ele passa o longa todo no piloto automático, parecendo não querer se esforçar muito. E para piorar, seu personagem, o agente renegado Tobin Frost, também não ajuda. Sofrendo com a super-exposição, há todo um background criado para ele que simplesmente não funciona, e as tentativas de humanizá-lo são meio constrangedoras (como nos diálogos sobre vinho). Tudo isso fragiliza o mistério existente ao redor dele, que é essencial para torná-lo ameaçador e não-confiável, conforme a premissa que a obra vende. E um exemplo claro disso é toda a mirabolante cena de fuga do Frost logo no começo, que peca pela exposição excessiva da trama e enfraquece o impacto que teria um personagem tão procurado simplesmente aparecer na frente da embaixada americana na Cidade do Cabo, o que intigaria não apenas os outros personagens, mas também o espectador.  E os momentos em que Protegendo o Inimigo engrena são justamente aqueles em que Tobin Frost se mantém em segundo plano e o novato Matt Weston (Ryan Reynolds) assume o papel de destaque. Afinal, ele é o inexperiente naquele mundo repleto de redes de espionagem e crimes internacionais, e por isso, torna-se os olhos do espectador naquele universo. E nesse aspecto, Reynolds - que ainda tem um bom caminho para se provar na carreira - ao menos tem uma atuação muito mais comprometida do que a de seu parceiro de cena. A diferença entre Matt no começo, entendiado pela ausência de trabalho e estagnação na carreira, e no final, é visível, e essa transformação deixa seu personagem mais crível.  Mas a melhores coisas do longa acabam sendo suas cenas de ação. Embora não seja um grande fã desse estilo que envolve montagem frenética e câmera chacoalhante na mão, aqui ele funcionou muito bem. Há diversos momentos empolgantes, como a invasão à casa segura, que é bastante tensa, e a excelente luta no final entre Weston e Keller (Joel Kinnaman, escolhido para ser o novo RoboCop), violenta, doída e improvisada na medida certa. Além disso, o longa utiliza imagens marcantes da África do Sul como cenários para boas perseguições, como o Cape Town Stadium, construído para a última Copa do Mundo, e suas favelas - ambas locações que lembram muito o Brasil.  Protegendo o Inimigo é um filme que tinha bom potencial - seu roteiro inclusive fez parte da Black List (lista anual dos melhores roteiros não produzidos em circulação em Hollywood) de 2010 - mas que parece ter se formatado demais para encaixar e capitalizar a presença do Denzel Washington, e com isso, perdeu o foco e a eficácia que poderia ter. Ainda assim, é um trabalho regular, de um diretor (Daniel Espinosa) e um roteirista (David Guggenheim) relativamente inexperientes, e possivelmente com uma longa carreira pela frente. Já para um astro como Denzel Washington, fica a torcida para que volte a ser exigido em algum grande filme (em seu próximo papel será dirigido pelo oscarizado Robert Zemeckis, então quem sabe?), pois talento de sobra ele tem.</description>
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      <title>Habemus Papam</title>
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      <pubDate>Wed, 11 Apr 2012 18:06:48 -0300</pubDate>
      <description>&lt;a href=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Entradas/2012/4/11_Habemus_Papam_files/Habemus%20Papam.jpg&quot;&gt;&lt;img src=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Media/object002_3.jpg&quot; style=&quot;float:left; padding-right:10px; padding-bottom:10px; width:182px; height:128px;&quot;/&gt;&lt;/a&gt;Por Rafael Carvalho&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Nanni Moretti é um lord. Nesse seu mais novo filme, o diretor-roteirista-ator bate forte na Igreja Católica, nos seus costumes, preceitos e, principalmente, na fé em crise. E essa crise nunca foi tão aparentemente levada na “brincadeira”, isso porque o filme toca nesses pontos com sutileza absurda, perpassando pela comédia ácida e perspicaz da qual o diretor é exímio em fazer, sem precisar ser agressivo. Por isso, o tom da comédia é bastante apropriado para espezinhar os católicos fervorosos. O resultado é um misto inusitado de filme duro e gracioso. Um filme maduro.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Se no seu longínquo A Missa Acabou (1985) Moretti já fazia sinais que acusavam a falência do catolicismo (interpretando ele mesmo um padre em crise na função), aqui sua mira é em algo maior, mais simbólico: o próprio Papa. E nada que ponha mais em cheque a instituição religiosa do que um líder que, ao ser escolhido Pontífice, é acometido por uma crise de pânico que o paralisa diante do poder. Não é recusa, é indecisão sobre capacidade própria de carregar tamanha cruz.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Daí que o filme se aproveita desse mote para alfinetar de várias maneiras aquele universo antes sacro, agora visto ser corroído por dentro. Começa com a religião cedendo lugar para sua antiga rival, a ciência, uma vez que um psicanalista (o próprio Moretti), o melhor de todos da Itália, é chamado às pressas para ajudar o novo Papa (vivido por um soberbo Michel Piccoli, a desolação estampada em seu rosto) a romper o trauma inicial. Quando o Pontífice acaba fugindo do cerco de todos e passa a perambular pela cidade à paisana (ninguém conhece ainda sua identidade), o médico acaba por ter de aplicar seus métodos de análise nos próprios cardeais, desesperados diante de situação tão inóspita que presenciam.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A partir daí, as duas “tramas paralelas” investem em muitos outros exemplos de como a Igreja e seus principais zeladores são revelados em pequenas problematizações. O momento mais marcante é quando os cardeais, reunidos no conclave para escolher o próximo papa, suplicam a Deus para não serem votados. Na verdade, toda a primeira meia hora do filme é soberba na construção de uma ritualidade que todos respeitam, mas que poucos querem que as atenções recaiam sobre si no final.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Depois disso, o longa perde um pouco sua força, talvez por esse início ser todo muito rico da força dramática que desestabiliza as convicções de um grupo de líderes religiosos que deveriam sustentar com afinco uma crença. Mas é como se o filme abraçasse o fake como forma de alcançar esse estado de impossibilidade, ao mesmo tempo em que acredita piamente no nonsense e precisa dele para fazer sua crítica a um certo estado de coisas.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Mesmo assim, o filme continua sua empreitada de cutucadas. Está no choque que o Papa tem no contato com pessoas comuns nas ruas, em especial vendo reavivar sua antiga paixão pelo teatro quando descobre uma trupe que encena Tchekhov (é sintomático o momento em que ele diz ser, na verdade, um ator); mas se encontra também nos cardeais sofrendo de dores de cabeça e jogando vôlei para aplacar as angústias, ou na cena em que o psicanalista, recitando trechos da Bíblia, diz que aquele se trata de um livro depressivo.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Se o absurdo das situações soa tão implausível, é daí mesmo que Moretti tira a graça do filme, a partir do inimaginável, junto com uma pitada de coragem. O filme mais conhecido de Moretti talvez seja o drama em luto O Quarto do Filho, Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2001. Apesar de ótimo (um de seus melhores trabalhos) não é a melhor referência aqui porque Habemus Papam trabalha no registro de um certo humor negro com fundo de seriedade. Nesse sentido, o filme se assemelha bastante ao longa anterior do cineasta, O Crocodilo, sátira pesada, mas fantasiada de comédia, a Silvio Berlusconi e sua figura de poderoso chefão da política e das comunicações na Itália.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A filmografia do diretor é marcada pelo humor sagaz, sem precisar ser rasteiro ou recorrer a subterfúgios da comédia rasgada. Se parece tão fácil atacar a religião atualmente, com tanto exemplos de estagnação intelectual e retrocesso cultural, Habemus Papam busca um caminho mais enviesado, o que reforça mesmo sua singularidade. No fim, existe um alvo muito claro no filme, coisa que a cena final sacramenta como uma pancada contundente naquele universo de homens cuja fé se encontra na corda bamba.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Anderson Silva:  Como Água 2</title>
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      <pubDate>Thu, 5 Apr 2012 17:42:25 -0300</pubDate>
      <description>&lt;a href=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Entradas/2012/4/5_Anderson_Silva__Como_%C3%81gua_2_files/Anderson%20Silva.jpg&quot;&gt;&lt;img src=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Media/object004_2.jpg&quot; style=&quot;float:left; padding-right:10px; padding-bottom:10px; width:182px; height:128px;&quot;/&gt;&lt;/a&gt;Por Rafael Carvalho&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Tem sido muito comum recentemente que o filme de ficção se utilize de recursos e preceitos da linguagem documental, interessante tentativa de conferir maior “realidade” para suas histórias. No entanto, o movimento inverso é pouco usual, mas é nesse registro que se enquadra Anderson Silva: Como Água, produção norte-americana sobre o lutador brasileiro de MMA (artes marciais mistas, da sigla em inglês), um dos esportes que têm ganhado mais visibilidade e admiradores nos últimos anos.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Isso porque o documentário do novato Pablo Croce é exímio em construir toda uma trama calcada em um momento específico da vida de Anderson Silva: o desafio a ele feito pelo marrento e prepotente Chael Sonnen em 2010. Anderson detém o cinturão dos pesos médios na UFC há mais de cinco anos, um feito inédito na história do campeonato. Assim, antes de ser uma cinebiografia, o longa se preocupa em contar essa história em particular e acaba, então, revelando muito da personalidade, atitudes e talento do lutador. E esse é um dos grandes acertos do longa porque retira toda a carga de convencionalidade que a maioria documentários carrega.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Porque além de ser um dos grandes lutadores do MMA (o que o documentário, é claro, defende através de uma série de depoimentos favoráveis), Anderson revela também um grande ser humano, profissional justo, centrado em seu trabalho, com respeito ao oponente (mesmo que a recíproca seja totalmente oposta). Antes da luta, em diversos pronunciamentos, Sonnen fazia questão de sempre menosprezar e atacar Anderson, tipo de provocação vil que mais aumentava a figura de desprezível de Sonnen.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Pois esse é o material perfeito para que o documentário contraponha esses dois antagonistas, tudo favorecendo a história do lutador bonzinho que sai da periferia e é ameaçado no ringue por um completo idiota. E talvez resida aí um problema do filme: sua tentativa de tornar tudo muito maniqueísta, muito polarizado (embora todo o registro tem caráter de documento, aconteceu de fato, o que de certa forma absolve o filme, mas não o impediria de buscar outras camadas que tornassem os personagens mais tridimensionais).&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;De qualquer forma, o filme se beneficia de toda essa situação e constrói sua trama muito bem amarrada e esquematizada, quase como se houvesse um roteiro previamente definido. A curta duração do filme também ajuda a fechar bem essa história, sem intenções de querer ser algo maior do que pretende nem inchar o filme.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Além disso, Anderson se vê inserido num ambiente estranho já que resolve fazer todo seu treinamento nos Estados Unidos (fala pouco de inglês), longe da família e amigos. Por sua vez, o esporte também tem muito de político, em que é preciso seguir certas regras intrínsecas ao jogo de interesses dos envolvidos, no sentido de atrair público e chamar atenção midiática do evento, tendo Anderson que driblar essas questões para continuar fazendo bem seu trabalho (o que lembra bastante o dilema de Airton Senna no final de sua carreira, revelado no documentário inglês sobre o piloto de Fórmula 1). &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Daí que é bastante pertinente o filme se iniciar com uma fala exemplar do mestre das artes marciais, Bruce Lee: “Se você coloca água em um copo, ela se torna o copo; se você coloca em uma garrafa, ela se torna a garrafa. Seja como a água”. Ele defende assim a necessidade do lutador em se adaptar ao ambiente em que está inserido a fim de sair vitorioso, justamente o movimento que Anderson busca fazer, muitas vezes tropeçando no meio do caminho. Nesse sentido, o documentário humaniza bastante a trajetória desse lutador vitorioso, que já deixou sua marca na história do MMA, mas que mesmo assim ainda tem muito de determinação e respeito ao esporte, ao seu próprio trabalho (o momento em que ele se ajoelha perante o “inimigo” é exemplar nesse sentido, a prova maior do grande homem que ele é).  &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Portanto, o maior desafio de Anderson é esse: ser como água, se adequar ao formato, às intransigências, aos meandros de uma profissão dura e exigente, mantendo, ao mesmo tempo, a serenidade e decência. E como é dito pelo próprio Anderson Silva, ninguém bate mais forte que a vida. O que importa é o quanto você consegue apanhar dela.</description>
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      <title>Anderson Silva:  Como Água</title>
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      <pubDate>Thu, 5 Apr 2012 17:40:47 -0300</pubDate>
      <description>&lt;a href=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Entradas/2012/4/5_Anderson_Silva__Como_%C3%81gua_files/comoagua.jpg&quot;&gt;&lt;img src=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Media/object003_2.jpg&quot; style=&quot;float:left; padding-right:10px; padding-bottom:10px; width:182px; height:128px;&quot;/&gt;&lt;/a&gt;Por Rafael Saraiva&lt;br/&gt;Na histórica citação que abre e dá subtítulo ao documentário, Bruce Lee aconselha sermos como água: &amp;quot;Esvazie a sua mente, não tenha forma, seja moldável, como água. Se você coloca água em uma xícara, ela se transforma na xícara. Se você coloca água em uma garrafa, ela se transforma na garrafa. Você coloca água em um bule, ela se transforma no bule. A água pode fluir, ou se espatifar...seja água, meu amigo&amp;quot;. Palavras que podem soar óbvias, mas que trazem consigo muitos significados, podendo ser aplicadas em diferentes contextos. Assim, de que jeito elas se relacionam com o lutador de MMA mais celebrado na atualidade, o brasileiro Anderson Silva? Afinal, são épocas diferentes, lutas diferentes e indivíduos diferentes. Parece uma decisão consciente que o filme, em nenhum momento, explicite uma discussão sobre isso, evitando o didatismo em excesso. Ao invés disso, ele &amp;quot;apenas&amp;quot; fornece material para que o público faça sua própria(s) leitura(s), sendo essa a maior virtude desse interessante, ainda que falho, documentário.  E é um grande ponto de partida não necessitar de um conhecimento prévio das artes marciais mistas ou, especificamente, do UFC (maior organização de MMA) ou de seus lutadores, para poder apreciá-lo. Pontuado apenas com discretos letreiros para situar o espectador, o recorte feito da história é tão preciso que quase parece uma ficção. Anderson Silva, nosso vitorioso protagonista e herói, começa o longa em xeque: questionado pelo público, mídia e seu chefe pelo seu desempenho não tão explosivo em uma luta que acabou vencendo por pontos, ele se encontra em uma posição difícil, tendo que reconquistar seu respeito que acabara de ser arranhado. Então Dana White, presidente do UFC, como o Homem por Trás da Cortina que simboliza, organiza um desafio capaz de devolver a glória ao brasileiro, ou acabar de vez com sua carreira - e, de um jeito ou de outro, sair ganhando como grande showman que é. E por fim, há a figura de Chael Sonnen, o lutador americano escolhido para desafiar Anderson, que segue a cartilha dos grandes vilões da ficção: falastrão e arrogante, age como a antítese do herói, e a cada nova declaração vai se torna mais e mais execrável ao passo que torcemos mais e mais pelo brasileiro. Três papéis tão claros e bem definidos que em alguns momentos parece difícil acreditar que tudo aquilo aconteceu de verdade, com essa história de redenção tão parecida a tantas tramas já vistas em livros ou filmes de Hollywood. Um daqueles casos em que não só a vida parece imitar a arte, mas nos faz questionar se nossa vida há muito tempo já não assimilou essas referências ficcionais, em uma espécie de ciclo onde realidade alimenta fantasia que alimenta realidade.  E com Dana White e Chael Sonnen tão empenhados em seus papéis, restava a um único ator tomar seu lugar sob os holofotes: Anderson Silva. E é aí que a citação do Bruce Lee parece fazer todo o sentido. O documentário trata do lutador Anderson Silva se transformando no personagem Anderson Silva, desse grande show que é o UFC - que não apenas acontece dentre do octógono, mas também fora dele: nas entrevistas, na pesagem, nas sessões de autógrafo, nas festas, nos treinamentos, em cada um desses elementos que compõem esse espetáculo. E o brasileiro mostra que essa não é uma transição fácil: em diversos momentos ele parece cansado de tudo aquilo, como na ótima cena da entrevista pelo telefone, e as considerações que faz em seguida sobre o modo mecânico e óbvio que as perguntas são conduzidas. Ou quando ele admite que não aguenta mais treinar e esperar pelo dia da luta. É o lutador se tornando água, e se moldando no grande herói que a história pede que ele seja. Mas vale ressaltar que essa alegoria não é exclusiva do UFC ou do show business - em algum grau maior ou menor, é uma situação passível de acontecer no cotidiano de cada um de nós, seja no ambiente de trabalho ou em qualquer de nossos círculos sociais - e muitas vezes somos água sem mesmo nos darmos conta disso. É algo que não necessariamente é uma coisa negativa (ou positiva), mas uma característica valorosa de ser aprendida e utilizada com sabedoria. Todo esse contexto simbólico do filme é muito forte e bem amarrado, sem dúvida seu maior mérito.  Infelizmente, é uma pena que a execução do longa não seja tão eficaz assim, com uma parte técnica deficiente. O trabalho de câmera é bem fraco e confuso. Talvez pelo calor do momento no registro das situações, o operador muitas vezes parece perdido, sem saber o que enquadrar, ou mesmo escolhendo ângulos estranhos, em closes exagerados com luz estourada. Além disso, a captação de som é ruim, resultando em várias cenas com diálogos difíceis de serem compreendidos em meio a tantos outros sons externos, como na cena em que Anderson conversa com o também lutador brasileiro Lyoto Machida, com uma música berrante ao fundo que abafa quase que completamente a fala dos dois. Ao menos na parte sonora há de se elogiar a escolha de algumas músicas para a trilha, como o rock progressivo do Explosions in the Sky para o final, contrastando o sentimento de euforia da luta com toda aquela condução lenta e carregada da canção So Long, Lonesome.  E como grande fábula que é, até quem nunca acompanhou UFC na vida saberia o resultado da luta entre Anderson Silva e Chael Sonnen. O brasileiro cumpriu direitinho o papel de herói que lhe foi imposto nessa história. E ao utilizar uma fala famosa do Bruce Lee, ser acompanhado até o octógono pelo Steven Seagal e encerrar o filme citando praticamente palavra por palavra um monólogo famoso do Sylvester Stallone em Rocky Balboa, Anderson Silva por um breve momento desfaz a linha que separa os heróis da ficção e da vida real. Como água.</description>
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      <title>Shame</title>
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      <pubDate>Wed, 28 Mar 2012 12:49:08 -0300</pubDate>
      <description>&lt;a href=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Entradas/2012/3/28_Shame_files/ht_michael_fassbender_shame_jef_111201_wblog.jpg&quot;&gt;&lt;img src=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Media/object000_7.jpg&quot; style=&quot;float:left; padding-right:10px; padding-bottom:10px; width:182px; height:128px;&quot;/&gt;&lt;/a&gt;Por João Paulo Barreto&lt;br/&gt;Há uma discussão válida em Shame, filme estrelado pelo excelente Michael Fassbender, que martela a mente durante boa parte da projeção do longa: o comportamento de seu protagonista é, realmente, condenável? Um cara que opta por viver em busca de prazer sexual em uma vida que o filme tenta exibir como vazia por essa razão, é uma pessoa que pode ser classificada como superficial? (ou, um dos adjetivos mais imbecis que ouvi ao sair da sala, “pobre de espírito”? Ah, os religiosos...). Desculpem os puritanos que arriscaram a sessão, mas a resposta é não.&lt;br/&gt;Ok, o roteiro escrito pela inglesa Abi Morgan (do vergonhoso A Dama de Ferro) em parceria com o diretor Steve McQueen tenta provar durante o arco final da projeção que a vida escolhida pelo executivo Brandon Sullivan não é digna. No entanto, a reflexão que o filme traz é bem mais profunda do que apenas o ato de julgar e condenar uma pessoa por suas escolhas de vida, que, no final, só dirão respeito a ela mesma. &lt;br/&gt;Shame começa apresentando a rotina de Brandon, pintando-o como um viril amante e um cara tão viciado em sexo que é capaz de se masturbar apenas algumas horas depois de transar. Explorando sem pudores a nudez de Fassbender, o diretor McQueen a utiliza não de forma gratuita, mas, sim, como um reflexo do modo como o universo do protagonista deve ser conhecido pelo espectador. Individualista e solitário por opção, Brandon evita atender os constantes telefonemas de uma mulher que, em seguida, descobriremos se tratar de sua irmã caçula, Sissy (Mulligan), uma cantora de bar com um histórico de vida um tanto traumático. &lt;br/&gt;A relação dele com Sissy é definidora para o entendimento da personalidade atormentada de Brandon. Escondendo-se atrás de uma fachada de sofisticação cujo perfil de rotina e trabalho denotam isso de forma ideal pelo filme, Sullivan se esforça para não demonstrar emoções profundas de afeto, mantendo suas relações sempre no âmbito do superficial, sejam com colegas de emprego, mulheres com quem mantém um caso ou a própria irmã. Talvez por isso seja surpreendente a reação que o vemos ter ao assistir uma apresentação da irmã em um bar (Carey Mulligan arrasando em uma versão de New York New York). &lt;br/&gt;O diretor Steve McQueen utiliza planos fixos, sem cortes, em diversos diálogos, os quais, dessa forma, tendem a demonstrar todo o manejo do protagonista em lidar com incisivas tentativas de desvendá-lo. O mais interessante deles é quando o vemos em um jantar com uma colega de trabalho: mantendo a imagem durante longos minutos apenas na conversa dos dois, é perceptível o modo como Brandon tende a se esquivar das perguntas que a bela garota lhe faz, principalmente quando estas tratam do modo como ele foge de relacionamentos mais profundos que apenas uma transa casual. &lt;br/&gt;Mantendo sempre um tom de voz baixo e controlado, Fassbender constrói um personagem fascinante que, gradativamente, vai perdendo o controle de suas ações ao perceber seu mundo violado. A começar por sua irmã (o momento onde o vemos explodir surpreende justamente por estarmos acostumados a vê-lo sempre sereno), que insiste em viver com ele sob a alegação forçada de que eles são uma família. A longa cena onde ambos são enquadrados de perfil enquanto conversam em uma delicada atmosfera que tende a se tornar agressiva a qualquer momento, reflete bem o estudo de personagem proposto pelo longa.&lt;br/&gt;Uma pena que o filme tenda ao conservadorismo colocando Brandon em um conflito interno no qual sua vida passa a ser avaliada e condenada por ele. A cena onde o vemos jogar no lixo revistas pornográficas e um laptop (!!) reflete bem essa ideia do roteiro, a de que o seu perfil de vida merece ser condenado e modificado. E é por isso que os momentos onde o vemos perder o controle e cair em uma descontrolada busca por sexo soe, justamente, como uma forma da história o colocar em uma condição (forçada) que requer uma mudança urgente. &lt;br/&gt;E todo o falso moralismo centrado na cena final, onde a visão de uma aliança de casamento reflete o conflito interno pelo qual passa o personagem, apenas corrobora a tentativa do roteiro em separar comportamentos certos e errados. </description>
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      <title>Entrevista com &#13;Walter Carvalho</title>
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      <pubDate>Wed, 21 Mar 2012 19:15:33 -0300</pubDate>
      <description>&lt;a href=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Entradas/2012/3/21_Entrevista_com_Walter_Carvalho_files/IMG_1900.jpg&quot;&gt;&lt;img src=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Media/object001_5.jpg&quot; style=&quot;float:left; padding-right:10px; padding-bottom:10px; width:182px; height:128px;&quot;/&gt;&lt;/a&gt;Coisa de Cinema entrevista Walter Carvalho, diretor do documentário Raul – O inicio, o fim e o meio.&lt;br/&gt;Por João Paulo Barreto &lt;br/&gt;O diretor Walter Carvalho afirma que, após concluir a pós-produção de Raul – O inicio, o fim e o meio, documentário que esmiúça a vida pública e familiar do mito Raul Seixas, morto em 1989, sentia como se ele estivesse ali, tamanha a presença que o mito do rock nacional é capaz de causar. Também, não é para menos. Após reduzir um material bruto de 400 horas para um produto final de duas horas de duração, Carvalho só poderia, mesmo, enxergar o Raul em todo canto. “Eu queria mesmo era que ele estivesse aqui, dividindo essa barra comigo”, afirmou, durante essa divertida entrevista ao Coisa de Cinema. Este veterano diretor paraibano que migrou para o Rio de Janeiro em 1968, aos 21 anos de idade, foi testemunha de todo o movimento musical que a cidade simbolizou nos anos 1970 e 1980. Responsável por levar às telas a vida de outro mito da música brasileira, Cazuza, Walter afirma que, assim como aconteceu com o longa sobre o poeta carioca, foi o Raul quem o escolheu para esse desafio. Não diretamente, claro, mas ele diz contar com a sorte para ter essas oportunidades. Foi assim com Cazuza e, agora, ela se repete com Raulzito. Uma coisa é certa: os sortudos são, mesmo, os espectadores que poderão conferir a partir do dia 23 toda a genialidade de Raul Seixas através da óptica desse talentoso diretor. Com a palavra, Walter Carvalho.&lt;br/&gt;Coisa de Cinema - Olá Walter! Tudo bem?&lt;br/&gt;Walter Carvalho - Olá, meu querido. Tudo bem com você?&lt;br/&gt;Coisa de Cinema - Tudo beleza. Walter, antes de a gente começar a entrevista, eu queria te falar uma coisa. Ano passado, na ocasião da Mostra de São Paulo, eu li uma entrevista sua sobre o seu filme na qual você dizia que era somente o público que iria poder dizer se você deu ou não conta de contar a história do Raulzito em duas horas de projeção. Olha, o que eu vou te dizer agora não será dito como jornalista, mas, sim, como apenas um bom baiano fã de rock e de Raul: você deu conta, cara. Você mandou muito bem. Ao sair do cinema, confesso que me senti extasiado, realmente muito impactado por aquelas imagens e depoimentos. A minha trajetória de vida teve muito Raul Seixas por causa de meu pai e o momento do filme onde Trem das 7  é ouvida foi a que me causou maior emoção. &lt;br/&gt;Walter Carvalho - Puxa, obrigado. É muito bom ouvir isso. Eu me emociono ao ouvir isso, porque você, mesmo me dizendo que fala não como jornalista, mas você sendo um, acaba possuindo uma visão e leitura muito mais aguçadas do que, normalmente, o espectador comum teria. &lt;br/&gt;Coisa de Cinema – Na ocasião da Mostra, você falou, também, que tinha pelo menos quatrocentas horas de material para trabalhar na montagem, transformando-as em apenas duas horas de filme. Qual foi o processo que você e o montador Pablo Ribeiro tiveram que seguir para estruturar tamanha quantidade de material?&lt;br/&gt;Walter Carvalho – Eu estava diante de mais de quatrocentas horas de material. E olha que eu não filmei toda essa quantidade. Eu filmei duzentas e poucas horas, o que já é um absurdo. E juntando com as que eu tinha de arquivo, dava mais de quatrocentas horas. Agora, é preciso que se diga o seguinte: eu fiz 94 entrevistas. Isso é um absurdo em termos de documentário. Essas entrevistas, inclusive, grande parte delas eram de pesquisa. A parte de Salvador, onde eu escutei muitas pessoas, era puramente de pesquisa. Por exemplo, eu não conhecia o Olival (Dias Viana Filho, amigo de infância de Raul). Então, foi preciso fazer entrevistas que serviam, ao mesmo tempo, como pesquisa e como descoberta. O Olival, para mim, é uma descoberta. É um dos melhores momentos do filme por sua espontaneidade e pela revelação que ele faz. O Olival foi a melhor maneira que eu encontrei de dizer por que o Raul gostava de Elvis e por que ele o imitava. Então, respondendo sua pergunta, o que eu fiz foi pegar uma grande folha de papel onde coloquei a foto do Raul no centro e fiz uma série de quadrados em volta da cara dele. Fixei na parede da sala de montagem e fui colocando o nome das pessoas que eu tinha entrevistado com uma linha central que representava o nascimento, a infância e a morte. De um lado, eu tinha a parte, digamos, inicial do Raul, que eram os produtores, a cidade de Salvador, e do outro lado eu tinha a parte familiar. Eu não dividi isso de forma tão intencional, mas, aos poucos, aquilo foi se organizando daquela forma. Então, em um dado momento, eu descobri que estava com um filme que tinha dois planos: o primeiro era privado e o segundo era público. A cortina que conduz o plano privado acontece de forma cronológica. E o plano do público, do Raul artista, ele acontece de forma fragmentada, tanto que eu começo o filme com ele já cantando Luiz Gonzaga, já cantando Let me sing e desenhando no peito com batom a ansata (imagem que ilustra o cartaz do longa). Mas, ao mesmo tempo, ali está acontecendo um outro plano que é o nascimento do Raul, sua adolescência imitando Elvis Presley, sua mudança para Raulzito e seus Panteras na Bahia. Daí ele vai para o Rio de Janeiro, conhece Paulo Coelho, as suas mulheres, seus casamentos, seus filhos e, por fim, sua morte. Ou seja, essa vida privada é absolutamente cronológica: ele nasce e ele morre. O filme não tem medo dessa cronologia. Mas o que a perturba e que é uma coisa da própria cabeça do Raul é a sua vida pública, que ao mesmo tempo que corre junto, ao mesmo tempo elas se cruzam. E tem hora que esse privado vem para frente, tem hora que quem está em evidência é a vida pública. Então, essa é a estrutura narrativa do filme. Como é que eu chego a isso? Exatamente a partir desse núcleo que eu chamei de “genealogia da trajetória”. Eu fui com os nomes de cada pessoa envolvida na vida do Raul escrito nesses quadradinhos (produtores, parceiros, amigos, mulheres), vendo quem tinha relação com o Raul e quem tinha relação entre si. Desse modo, eu fui traçando retas e analisando cada viés. Na ilha de montagem, com meu editor, na solidão de um ano e meio, de seis a oito horas por dia, eu ia cruzando a montagem naqueles assuntos e ia descobrindo coisas. Cada assunto levava a outro viés no papel. Eu ia traçando setas de uma mulher para outra, de um amigo para outro, de uma das mulheres do Raul para um produtor. Quando terminou, se você visse o emaranhado que isso ficou, riscado na parede da sala... (risos). Houve momentos em que eu ia para casa (pausa), cara, eu ia para casa completamente perdido! Quer dizer, não é bem perdido. Eu ia para casa perturbado. Perturbado! Primeiro porque você fica com a voz do Raul dentro da cabeça. Eu, no final da montagem, achava que o Raul estava ali. Eu comecei a achar que eu era amigo do Raul. &lt;br/&gt;Coisa de Cinema – E agora? Essa voz do Raul ainda está presente? Ainda mais estando aqui, na terra natal dele.&lt;br/&gt;Walter Carvalho - Eu vou te falar: hoje, quando eu estava no avião chegando a Salvador e olhei lá para baixo, eu tive uma sensação em que precisei me conter. Porque eu queria muito que ele estivesse aqui. Como eu queria que ele fosse enfrentar comigo o que eu vou enfrentar. Hoje, historicamente, eu estou entregando esse filho ao público. A partir de hoje, às 21h30min (horário em que a pré estreia ao público começou), o filme já não me pertence mais. Ele me pertence até às 21h29min. Depois disso, eu não terei mais nenhum poder sobre ele. Acabou. É o público quem vai dizer se eu dei conta ou não da vontade que eu tinha de fazer um filme sobre um mito. Filmar um mito é difícil porque você não tem como defini-lo. Eu inventei um Raul. Eu descobri, encontrei e inventei um Raul. Eu tinha um bloco de quatrocentas horas, como se fosse um sólido, que eu tive que ir arrancando pedaços de tudo que não era o Raul. Eu fui deixando dentro um Raul que eu fui encontrando e, ao mesmo tempo, inventando. Inventando a partir de que? Inventando a partir da memória das pessoas. Eu não tinha memória para saber qual era a relação dele com o irmão.  O que o irmão dele me diz no filme é fundamental. É como se eu tivesse uma colcha de retalhos desorganizada. Colada de forma desorganizada. Quando eu escuto o Plínio (Seixas, irmão de Raul); quando eu escuto a Kika (Seixas, ex-mulher de Raul), o Olival, o Roberto Menescal, o Pedro Bial ou o Caetano Veloso, eu vou organizando esses retalhos até formar uma unidade, ou pelo menos uma harmonia dessa colcha de retalhos como um todo. Esse pano recortado com uma certa organização, é o Raul que eu inventei.&lt;br/&gt;Coisa de Cinema – Essa estrutura que você citou traz para o filme algo que é bem notável. O modo como você inseriu as mulheres da vida do Raul, a fase de cada uma delas, e contrapôs opiniões para gerar um diálogo. E o mesmo você fez com os compositores. Há um momento em que você até brinca com essa rivalidade entre Paulo Coelho e Cláudio Roberto (parceiro de Raul na composição de, por exemplo, Maluco Beleza) colocando em um frame uma briga de galo, para apimentar ainda mais essa questão. &lt;br/&gt;Walter Carvalho – (risos) É, veja bem, o que o Paulo (Coelho) é? Ele é um escritor. O quê que eu fiz para perguntar ao Paulo sobre o Raul? Ao invés de chegar lá e perguntar assim “Como foi sua relação com o Raul?”, eu preferi ler os dois primeiros livros do Paulo e encontrei nas páginas relações, vieses, metáforas, analogias dele com o Raul. Então, toda pergunta que eu fazia para o Paulo Coelho, havia uma introdução dizendo “na página tal do seu livro, um personagem toma tal atitude. Essa mesma atitude, você tomou com o Raul em relação ao sistema. Por quê?” Então ele respondia com base no próprio livro. E o que ele faz, além de escrever? Ele é um arqueiro zen. O Cláudio Roberto, o que é? Ele é um cara que mora em um sitio, afastado do Rio de Janeiro duas horas, cheio de galinhas e outros animais, hortas, plantas, um cara que fica deitado numa rede e que cria galos. Ou seja, um atira flechas e o outro cria galos (risos). Então, eu perguntei para o Paulo: ”Paulo, quem é o parceiro mais importante do Raul?” E como ele é uma pessoa extraordinária enquanto inteligência, ele disse:  “O parceiro mais importante do Raul é o próprio Raul“. O resto, que são essas analogias do galo e do arqueiro, fica por conta do espectador. Aí, bicho, aí você é o imponderável. Por que, eu lhe digo, se chega uma mosca em Genève, na Suíça (referindo-se à entrevista dada por Paulo Coelho em sua casa em Genève quando uma mosca interrompeu a conversa), onde, segundo o Paulo, não costuma haver moscas, eu imagino que é uma questão de sorte. Eu sempre digo isso. O documentarista precisa ter um pouco da sorte do goleiro na hora do pênalti. Isso, claro, é uma alusão ao filme do Wim Wenders, O Medo do Goleiro diante do Pênalti. No caso do documentarista, esse medo vem do que pode acontecer durante a entrevista. Algo que, por exemplo, venha a extrapolar sua própria capacidade de investigar. Bom, imagina só: eu estou diante do Paulo Coelho, o maior vendedor de livros depois do Harry Potter. São mais de 500 milhões de livros vendidos. E, óbvio, existe uma música do Raul chamada “Mosca na Sopa”. Pois então, durante o papo com ele entrou uma mosca e passou a perturbá-lo. Bom, isso é a sorte do goleiro. Agora, o goleiro, além de ter a sorte de pegar a bola, ele tem que lidar com o acaso que é a escolha do lado certo onde a bola vai. Ou seja, o acaso daquele momento da mosca poderia passar despercebido por mim. Mas eu não permiti que isso acontecesse. Eu levei até as últimas consequências, porque eu fui muito ajudado pela sorte. Observe: primeiro apareceu uma mosca. Ele poderia ter assustado ela e continuado a falar, certo? No entanto, ele parou e falou: “Estranho, uma mosca. Não costuma ter mosca em Genève”. A mosca insiste. Aí ele faz o segundo comentário: “É o Raul”. Aí ele faz o terceiro comentário: “Não vou matar”. Ou seja, eu peguei vários pênaltis em uma partida só. Não é qualquer goleiro que pega três, quatro pênaltis em uma partida só. Eu peguei três pênaltis! Uma sorte! Foi algo que Deus deve ter falado assim: “Vou ajudar aquele cara, ali. Vou ajudar ele e o Raul” (risos). E ainda culminou com o Paulo fazendo aquele gesto de matar a mosca. Ele ainda ficou olhando para câmera com a boca aberta querendo rir durante uma fração de segundo suficiente para você não entender o que está acontecendo, algo que, claro, foi para a montagem final. São dessas coisas que o documentarista anda atrás.&lt;br/&gt;Coisa de Cinema – Você tem a experiência de ter filmado a vida do Cazuza, e agora você filma o Raul. A vida de Gonzagão está sendo filmada agora pelo Breno Silveira (diretor de 2 Filhos de Francisco). Como um bom nordestino, você gostaria de ter assumido esse projeto? &lt;br/&gt;Walter Carvalho – Olha, eu gostaria muito de ter podido filmar essa história. Infelizmente não tive essa oportunidade (pausa). Curiosamente, estreia agora no final de março um filme que eu fotografei que é o Heleno. O personagem título é um ex-jogador do Botafogo que foi muito famoso e que morreu pela do mesmo modo que o Raul: cheirando éter. Eu sou o fotógrafo desse filme. Quando eu fotografei o Heleno, eu tinha acabado de terminar a montagem do Raul. E os dois vão ser lançados no mês. Parece coisa combinada com o diretor (José Henrique Fonseca), que é muito meu amigo, mas é uma coincidência curiosa. Dá até para fazer analogias porque os dois acabaram a vida cheirando éter. &lt;br/&gt;Coisa de Cinema – Nos filmes que você fotografou, o espectador não consegue enxergar muito facilmente um estilo, uma marca. Eles são bem díspares em relação ao estilo. Para exemplificar, basta observarmos Amarelo Manga, Lavoura Arcaica e Central do Brasil, filmes que, no que se refere à fotografia, são trabalhos muito diferentes. Você costuma ter uma referência própria que sempre insere nos seus trabalhos, ou essa unicidade em cada filme já seria uma marca?&lt;br/&gt;Walter Carvalho – Eu acho que essas características são diferentes porque elas nascem de dentro do filme para fora. Eu, quando comecei a fotografar, ainda garoto, via uma coisa bonita em um filme e guardava aquilo. Aí quando eu ia fazer um filme, eu tinha aquilo em minha lembrança e queria fazer igual porque era bonito, era funcional. Eu estava trabalhando completamente errado. Um dia, eu saquei que era o contrário. Eu tinha era que entender e descobrir a fotografia que eu tinha que fazer dentro do próprio filme. E aí, quando o roteiro é escrito, de alguma forma, querendo ou não, existe uma luz ali dentro. Existe uma imagética ali dentro. As pessoas acham que a função do fotógrafo é iluminar a cena. Mas, não. Não é isso. A função do fotografo é descobrir dentro daquele roteiro, dentro daquele universo daquele argumento, qual é essa luz. Na mesma proporção que o ator tenta descobrir que personagem é aquele. Por isso que o Marlon Brando de O Poderoso Chefão é diferente do Marlon Brando de O Sindicato dos Ladrões. &lt;br/&gt;Coisa de Cinema – Ou ainda mais impressionante a diferença dele em O Último Tango em Paris. Assusta ainda mais saber que ambos são do mesmo ano.&lt;br/&gt;Walter Carvalho – São do mesmo ano? Pois é, imagina só. Eu não tinha pensado nisso. Por aí você percebe. O cara em um filme é uma coisa e em outro é algo completamente diferente. Há profissionais que você observa a fotografia deles em algum filme e logo percebe que é um trabalho dele. Isso porque ela remete a ele os códigos que foram vistos em outros filmes. Isso não é uma crítica, friso. Mas é um caminho que eu não sigo. Nos trabalhos que fotografei não dá para acontecer isso porque cada filme tem uma fotografia própria que está dentro dele. Cabe a você descobrir qual é essa imagética. Às vezes eu descubro, às vezes eu chego perto e em outras eu nem chego a descobrir, realmente. Mas a minha busca é essa. Eu não penso na câmera, eu não penso na luz, eu não penso no filtro. Eu sou obsessivo dentro do roteiro. Por que?  Bom, por exemplo, quando um ator entra em um ambiente, uma sala no escuro onde ele acende um abajur, o espectador é capaz de jurar que a luz exibida é oriunda dele. No entanto, aquela é uma luz cinematográfica. A luz do cinema é uma luz que você não vê. Ela está fora de quadro. É uma luz construída, mas, para mentir, por isso que o fotógrafo tem que ser um mentiroso, ele convence o espectador que aquela luz é realmente do abajur. Porque se ele for acendê-lo pura e simplesmente, aquela luz não será útil. Essa imagem, se for feita assim, ela não vale para o filme. Para valer, você precisará inventar uma luz que o filme entenda que aquilo é um abajur de uma sala e que vai clarear o ambiente. Aí é que está a questão da imagética, da visualização, da volumetria dos objetos em relação a sua captação e a sua representação aos olhos de quem assiste.&lt;br/&gt;Coisa de Cinema – E o Lula (Carvalho, filho de Walter, fotógrafo do filme Raul – O inicio, o fim e o meio) está seguindo teoria semelhante?&lt;br/&gt;Walter Carvalho – Ah, o Lula está mandando bem pra caramba (risos). Agora mesmo ele está na Espanha fotografando um filme inglês, depois segue para os Estados Unidos. Mas o que eu acho bacana é filmar por aqui mesmo. Digo isso porque estou com saudade dele e não o vejo faz um tempão. Mas ele tá danado, sabe? (risos) O Lula acredita no cinema meio que de uma forma religiosa. Ele jogou a vida dele em cima disso e talvez por isso esteja mandando tão bem.&lt;br/&gt;Coisa de Cinema – Na fotografia do Raul, você influenciou o Lula de alguma forma?&lt;br/&gt;Walter Carvalho – Eu influencio muito pouco os fotógrafos com quem trabalho. A minha teoria como diretor é semelhante a de um maestro em uma orquestra ou como um técnico de futebol: quem faz o gol não é ele, quem bate a falta não é ele, quem dá o drible não é ele. Quem sola, ou toca o piano não é o maestro. Mas todos eles estão sob uma regência. Sob uma estratégia, um comportamento que ele coloca para os seus comandados, sejam eles músicos ou jogadores. O diretor de cinema nada mais é do que isso. As pessoas falam muito que o cinema é uma arte coletiva. Não é porque tem muita gente no processo. Eu digo isso porque, por exemplo, eu já estive envolvido em projetos que tinha mais de cinquenta pessoas participando do processo, mas cada uma delas estava fazendo um filme diferente. Não é a quantidade de pessoas que faz o filme ser coletivo. O que torna o filme coletivo é a partitura ser tocada de forma harmônica e conduzida por um maestro que comanda o andamento, o diapasão, o ritmo, o brilho daquela orquestra. O diretor nada mais é do que isso. Portanto, o fotógrafo está para mim assim como o diretor de arte, o figurinista, o técnico de som, o montador. Então, a minha discussão com o diretor de fotografia é essa: nós temos uma série de elementos, certo? Como é que vamos circular entre esses elementos? Como diz o Goddard, o cinema não é coisa nenhuma. O cinema é o que está entre as coisas. E essas coisas é o que vai eleger para o fotógrafo. Então, não adianta eu dizer assim para ele: “cara, clareia isso, escurece aquilo”. Eu posso estar até contribuindo de alguma forma, mas eu também posso estar tirando a possibilidade dele fazer uma coisa que eu não conheço. E, claro, eu não posso ser suficientemente capaz de dizer nada para ele naquele momento porque eu estou vendo todo o conjunto. Então é preciso que você ponha a bola para o cara chutar. Se não o filme não se constrói. O Andrey Tarkovskiy (diretor soviético de obras como Solaris, falecido em 1986) falou uma coisa muito interessante no seu livro, Esculpir o Tempo. Ele fala que enquanto o sangue não circular em uma mesma artéria por toda equipe, não haverá filme. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Guerra é Guerra</title>
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      <pubDate>Wed, 21 Mar 2012 19:13:40 -0300</pubDate>
      <description>&lt;a href=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Entradas/2012/3/21_Guerra_%C3%A9_Guerra_files/Guerra%20%20Guerra.jpg&quot;&gt;&lt;img src=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Media/object000_6.jpg&quot; style=&quot;float:left; padding-right:10px; padding-bottom:10px; width:182px; height:128px;&quot;/&gt;&lt;/a&gt;Por Rafael Carvalho &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Comédia romântica disfarçada de filme de ação. É a volta do diretor McG a esse tipo de produto pelo qual ficou conhecido depois de fazer os subestimados (e talvez mal compreendidos) As Panteras e sua continuação As Panteras: Detonando. A diferença é que esses seus filmes anteriores (o primeiro, especialmente) eram bem mais engraçados, não se levavam a sério porque abraçavam sem pudores o pastiche. Exigiam uma postura relax de um público acostumado a receber dos filmes aquilo que eles pareciam prometer de imediato: ação ou comédia.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Pois Guerra é Guerra, ao seguir essa mesma cartilha da dupla caracterização, pode continuar soando como produto estranho (indefinido), ou então agradar pelo inusitado da proposta. E pensando bem, funciona também como uma esperta estratégia de mercado para atrair tanto o público feminino quanto o masculino nos seus respectivos gêneros “preferidos”. De qualquer forma, ainda assim seria mais proveitoso se tivesse um humor que valesse a pena, falta essa que já se tornou comum nos filmes do gênero, principalmente os hollywoodianos. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Na trama acompanhamos dois agentes do serviço secreto norte-americano que são grandes amigos desde pequenos (Chris Pine e Tom Hardy). Coincidentemente, eles passam a se envolver com a mesma mulher (Reese Withespoon), tímida e desesperada por encontrar um namorado. Daí que a rivalidade que os dois amigos nunca tiveram afloram na disputa de quem conquista a mulher primeiro. Uma rixa de cavalheiros, portanto, mas que logo descamba para os golpes baixos de ambos os lados.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;É uma premissa das mais divertidas, ainda mais quando o filme demonstra, por exemplo, que possui um texto ligeiro, com ritmo, ajudado por uma edição bem equilibrada e certeira, mas peca justamente por não ter graça, falta humor. Aí é que o filme não se sustenta como comédia. Por outro lado, as cenas de ação são boas e bem divertidas, embora estejam ali mais para ambientar o mundo repleto de perigos com os qual os dois agentes estão acostumados a lidar e que passam a infligir um ao outro. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Além disso, no seu movimento cíclico, o filme acaba se repetindo, através da briga de Tom &amp;amp; Jerry, que, por vezes, reveza qual deles caça o rato, tentando deter o controle fazendo o outro perdê-lo. Se em determinado momento um é que está levando a garota para seu apartamento, sendo pego desprevenido com alguma armação do rival, no outro dia é o próximo quem a está levando-a para jantar, já com a expectativa de ser sabotado de alguma forma, mas lidando com isso como se fosse uma grande surpresa. E assim o filme segue até um final em que se espera uma decisão por parte da moça, tentativa do longa de criar uma certa expectativa que se sustente até o fim.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;É como se McG brincasse a todo tempo com as convenções dos filmes de ambos os gêneros, embora, ao pender para a comédia, pareça fazer a escolha errada justo porque é na ação que o longa encontra os melhores momentos (mesmo que descontextualizados porque pouco importa em quais missões secretas os dois agentes estão envolvidos; elas só servem de pano de fundo). Da mesma forma em relação ao elenco, o timing cômico de Reese Witherspoon, geralmente uma atriz bem mediana, enfraquece esse lado do filme, enquanto Chris Pine e Tom Hardy, esse em especial, seguram muito bem a ação, além de demonstrarem bom tino para o cômico (que poucas vezes aparece).&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Assim, Guerra é Guerra lembra um pouco Sr. &amp;amp; Sra. Smith (o que não é das melhores referências, diga-se) em que a briga de gato-e-rato dá voltas em torno de si mesma durante toda a projeção até alcançar seu ápice (numa boa cena, não dá para negar), apesar de ambos os filmes lidarem com motivações distintas por parte de seus personagens. Melhor seria se McG se arriscasse mais, como já soube fazer.</description>
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      <title>Raul – O inicio,  o fim e o meio</title>
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      <pubDate>Sat, 17 Mar 2012 08:08:47 -0300</pubDate>
      <description>&lt;a href=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Entradas/2012/3/17_Raul_%E2%80%93_O_inicio,_o_fim_e_o_meio_files/RTEmagicC_raul-seixas.jpg.jpg&quot;&gt;&lt;img src=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Media/object000_5.jpg&quot; style=&quot;float:left; padding-right:10px; padding-bottom:10px; width:182px; height:128px;&quot;/&gt;&lt;/a&gt;Por João Paulo Barreto&lt;br/&gt;Existem semelhanças entre a figura de Raul Seixas como pessoa e como artista com a de Raul – O inicio, o fim e o meio, documentário. Sim, ambos, tanto o longa dirigido por Walter Carvalho quanto a mítica presença do cantor, causam um total impacto em seus ouvintes e espectadores que, ao final, quando percebemos que aquele é um Raul construído pela visão de uma outra pessoa, fica difícil desvirtuá-los. &lt;br/&gt;O esmero que o filme teve em estruturar a trajetória do maluco beleza é notório. Desde a sua infância pretensamente rebelde, com o cabelo pompom à la Elvis Presley (primeiro ídolo de Raul), os vícios precoces em cigarros e bebidas, a sua gênese artística com Os Panteras,  passando pela ida ao Rio de Janeiro para tentar a vida, o sucesso, as mulheres, os filhos, o flerte com o misticismo de Aleister Crowley, a parceria com Paulo Coelho, as drogas, o exílio político,  chegando, infelizmente, no declínio da saúde, o vício em éter e, por fim, a morte. Cada fase da curta vida do baiano roqueiro é trabalhada através de depoimentos da maioria dos envolvidos.&lt;br/&gt;Iniciando com imagens de Elvis em Balada Sangrenta (King Creole), filme de 1958 que Raul assistiu inúmeras vezes durante a infância e adolescência, e contextualizando de forma bastante eficaz com os beatniks de Easy Ryder- Sem Destino, o documentário viaja em diversas fases de Raul através de uma óptica por vezes cronológica e por vezes aleatória. Nada mais a ver com a personalidade metamórfica do roqueiro do que isso. Mas, claro, o longa acaba por seguir uma estrutura linear na maior parte do tempo, tendo como padrão o conceito de talking heads. No entanto, isso não chega a incomodar, uma vez que cada personagem em cada depoimento ajuda a compor o mito de modo elucidativo. &lt;br/&gt;Os depoimentos são um caso à parte. Os melhores ficam por conta dos parceiros compositores Paulo Coelho e Cláudio Roberto. Este último, compositor de Maluco Beleza, um dos sucessos que Coelho diz em depoimento que queria ter escrito. A já clássica cena em que uma mosca interrompe a entrevista do escritor em sua casa em Genebra, na Suiça, local onde normalmente não há moscas, figura entre uma das melhores do longa. Outros pontos observados com extrema perspicácia são os relacionados à fase em que Raul e Paulo Coelho estiveram envolvidos com seitas satânicas, influenciados pelo mago Aleister Crowley, fase que, surpreendentemente, o escritor descreve como período negro de sua vida e, ao falar sobre ele, percebe-se uma clara sensação de arrependimento.&lt;br/&gt;Utilizando entrevistas de Raul em cada fase de sua vida, é com tristeza que se nota como a imagem do ídolo se deteriorou com o passar de poucos anos. Se jovem o vemos no palco com um corpo esbelto onde desenha a cruz ansata em seu peito, em uma das suas últimas imagens já o vemos chegar no aeroporto de Salvador, junto ao músico Marcelo Nova, com um perceptível desequilíbrio e dificuldades gerados por seus vícios. Nova, inclusive, traz outro depoimento impactante ao falar sobre o fato de tê-lo trazido de volta do ostracismo e, por isso, ter sido acusado de aproveitador. A resposta do vocalista do Camisa de Vênus encerra bem essa polêmica: “Ele morreu de pé, cantando, no palco, da forma que tanto amava, e não sofrendo em uma cama de hospital, no esquecimento”.  &lt;br/&gt;Walter Carvalho optou por um eficiente modo de mesclar as opiniões de cada uma das fontes, gerando uma narrativa onde o diálogo criado entre elas colabora com a fluidez do documentário. Por exemplo, a evolução da história com as falas de cada uma das mulheres da vida de Raul acaba por nos trazer fatos que, quando costurados a partir da imagem delas sobre o cantor e sobre suas relações com ele, enriquece a descoberta da vida intima do ídolo. O impacto emocional da leitura das cartas que Raulzito enviou para suas filhas, de quem acabou se afastando de forma dolorosa por conta da falta de apreço pela própria saúde ou pelas taxas que a fama lhe cobrou, é de puro esclarecimento sobre a figura paterna que existia por trás daquela fachada de metamorfose ambulante. &lt;br/&gt;E não só esse momento nos faz refletir sobre como Raul chegou a uma fase de sua vida onde, fatalmente, lhe veio à mente um reflexão tardia sobre seus próprio atos suicidas. Em certo momento, o filme nos apresenta ao dentista que cuidou da boca do astro quando suas condições já estavam precárias. Triste vê-lo dizer que Raulzito teve sua autoestima renovada após o tratamento bucal. Triste pelo simples fato de que sua condição de saúde não o permitiria mais continuar.&lt;br/&gt;E desse modo, Raul – O inicio, o fim e o meio nos ajuda a conhecer aquele cara que descobriu tarde demais os próprios limites. O som dos gritos da multidão que compareceu ao enterro do homem e o trecho de Ouro de Tolo no qual ele canta “eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boa escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”, encerra a vida de Raul através de um simbolismo único, tão único quanto o mito ali esmiuçado.  &lt;br/&gt;</description>
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      <title>Pina</title>
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      <pubDate>Tue, 13 Mar 2012 15:16:20 -0300</pubDate>
      <description>&lt;a href=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Entradas/2012/3/13_Pina_files/pina.jpg&quot;&gt;&lt;img src=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Media/object000_5.jpg&quot; style=&quot;float:left; padding-right:10px; padding-bottom:10px; width:182px; height:128px;&quot;/&gt;&lt;/a&gt;Por Rafael Saraiva  No período de um mês de diferença, dois filmes lançados no circuito comercial brasileiro enfim demonstraram algo próximo das grandes possibilidades oferecidas pela tecnologia 3D tão ventiladas após o estrondoso sucesso de Avatar. Em a Invenção de Hugo Cabret, Martin Scorsese não se privou dos recursos tecnológicos para contar um pouco da história do próprio cinema, estabelecendo um diálogo muito interessante (e metalinguístico) sobre como a ilusão do espectador se dava e se dá em épocas tão distintas, mas com resultados semelhantes. E agora em Pina, Win Wenders utiliza as três dimensões em um contexto bem fora do esperado: um tributo à coreógrafa alemã Pina Bausch.  Afinal, o 3D é geralmente associado a histórias fantásticas, cheias de efeitos visuais ou em animações. Por isso, utilizar essa tecnologia em um documentário pode causar estranhamento em um primeiro momento. Mas o diretor não decepciona, e faz um dos usos mais impressionantes da técnica até agora. Vários números criados pela coreógrafa aqui são apresentadas de modo a encher os olhos de qualquer espectador, até daqueles sem interesse por dança. O palco ganha profundidade, e os dançarinos se espalham por ele como peças em um tabuleiro. O resultado da ação dos corpos em três dimensões é especialmente fascinante em Le Sacre du Printemps, onde grupos separados de homens e mulheres se dispõem em formas geométricas com movimentos coreografados, e a noção de volume se torna ainda mais perceptível. Já em Café Müller, a câmera, em parte do tempo posicionada como se estivesse na plateia do teatro, registra diversas ações acontecendo simultaneamente em diferentes pontos do palco sem nunca recorrer a um ajuste de foco para guiar a visão do espectador.  Mas os números encenados não se restringem apenas ao espaço do Tanztheater Wuppertal Pina Bausch. Em vários momentos, há passagens acontecendo no meio da cidade e em locações diversas como jardins, bosques e fábricas. E aí o visual consegue ficar mais impressionante (a cena do dançarino musculoso simulando os braços da dançarina que se encontra em sua frente é daquelas para guardar na memória) pois agrega uma série de novos elementos em movimento em cena, além da própria câmera do diretor se movendo livremente pelo ambiente. Um apuro técnico impecável, que ainda é beneficiado por um trabalho sonoro minucioso, que capta até mesmo os mais discretos sons, como um batidas no tablado, o barulho de água em Vollmond ou o simples arrastar de cadeiras, criando uma imersão forte.  Dito isso, é uma pena que, conceitualmente, Pina revele-se um filme tão confuso, com diferentes abordagens disputando entre si a tela. Muito dessa indecisão pode estar relacionada com a morte da coreógrafa, pouco antes do início da produção do longa (ela faleceu em junho de 2009). Assim, a homenagem que ela receberia em vida se transformou em um tributo póstumo, e o documentário parece contagiado por esse sentimento de luto - e ao incluir diversos depoimentos dos dançarinos do grupo da coreógrafa, essa percepção acaba amplificada, pois, invariavelmente, eles discorrem o tempo todo sobre o fato. E a obra tem dificuldades em traçar um perfil de Pina Bausch a partir da fala de terceiros, já que as opiniões individuais exibidas são distintas: há aqueles que se referem a ela como amiga, outros como mestre ou professora; uns falam do modo afetivo como recebiam seus conselhos, outros comentam como a coreógrafa era reservada; e há aqueles que simplesmente não falam nada, se mantendo em silêncio em frente à câmera (uma inclusão bem sacada). Por tudo isso, o longa diz mais (e funciona melhor) sobre esses dançarinos e o jeito que encontraram para levar adiante o legado da companhia de dança do que sobre a própria Pina - e é óbvio que se estivesse viva, o tom da obra seria diferente. Essa indecisão acabou por fragilizar o gacho emocional que o documentário poderia ter comigo, ainda mais pelo fato do meu conhecimento prévio sobre a coreógrafa e seu trabalho ser mínimo.  E assim, emocionalmente estéril, Pina se torna cansativo se analisado apenas pelas suas virtudes visuais, capazes de chamar a atenção de qualquer desavisado, mas que não são suficientes para carregar seus 103 minutos de duração sem desgaste. Claro que os fãs da Pina Bausch e de dança em geral devem oferecer uma resposta mais positiva ao filme, mas senti falta de ser fisgado. Ainda assim, um diretor do calibre do Win Wenders mostrar possibilidades verdadeiramentes interessantes para o uso do 3D é sempre gratificante e benéfico para o cinema, ajudando a derrubar a péssima impressão criada pelas produções pós-convertidas que inundam as salas quase toda semana. A arte agradece.</description>
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      <title>Billi Pig</title>
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      <pubDate>Thu, 8 Mar 2012 20:28:46 -0300</pubDate>
      <description>&lt;a href=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Entradas/2012/3/8_Billi_Pig_files/billipig.jpg&quot;&gt;&lt;img src=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Media/object002_2.jpg&quot; style=&quot;float:left; padding-right:10px; padding-bottom:10px; width:182px; height:128px;&quot;/&gt;&lt;/a&gt;Por Rafael Saraiva Mesmo após o término do filme, Billi, personagem que dá título à obra, continua uma grande incógnita: grande amuleto de Marivalda (Grazi Massafera) desde sua infância, o porco de brinquedo a acompanha para onde quer que a aspirante a atriz vá - inclusive para dentro de seus sonhos, onde ele implora para não ser sacrificado. A situação evolui ao ponto do porquinho começar a responder as confidências feitas pela mulher, agindo como uma espécie de voz da sua consciência que, entre outras coisas, lhe pede para largar Wanderley (Selton Mello), seu marido sem nenhuma perspectiva de vida. E a partir de certo momento, Billi passa a efetivamente interferir na história, inclusive aparecendo em lugares onde não deveria estar como se tivesse vida. Por tudo isso, era de se esperar que este fosse um personagem crucial na trama, mas o que acontece é ele ser progressivamente esquecido pelo roteiro, não tendo serventia alguma no final. E a triste verdade é que o mesmo desleixo sofrido pelo personagem-título se abate também sobre todo o restante do longa, um dos piores nacionais dessa última safra (e olha que a concorrência é forte). Afinal, nem parece que o roteirista/diretor de Billi Pig é o mesmo responsável pelo ótimo Se Nada Mais Der Certo. Com uma abordagem (e qualidade) completamente oposta a da sua obra de 2008, José Eduardo Belmonte tenta aqui fazer um humor brasileiro à moda antiga, menos ácido e irônico, com espaço até para números de música e dança. Mas fica apenas na tentativa, visto que o filme não tem graça alguma (ao menos para o espectador, já que os erros de gravação durante os créditos finais mostram os atores se divertindo bastante). E nem dá para culpar o trio principal - Selton Mello, Grazi Massafera e Milton Gonçalves visivelmente tentam extrair algum humor de seus personagens, enchendo-os de trejeitos e peculiaridades, mas são sabotados por um roteiro muito ruim. Além da já comentada indecisão sobre a relevância do porco Billi, há uma série de personagens coadjuvantes soltos na trama. A existência do &amp;quot;casal&amp;quot; interpretado por Preta Gil e Milhem Cortaz é inexplicável, uma vez que eles não tem serventia alguma, inclusive desperdiçando o mais óbvio desdobramento que poderia acontecer (isto é, o personagem do Milhem tentar matar a filha do traficante só por causa do dinheiro do funeral). Mas não para por aí: o roteiro não se decide se Marivalda deseja ser uma grande atriz (vide a cena do seu teste de elenco) ou simplesmente uma mulher rica e famosa (como demonstra durante toda sua estadia no hotel), desperdiçando o já frágil drama da personagem. E no meio de tantas situações que beiram o nonsense, o mistério e a posterior sequência de flashbacks da infância do padre Roberval (Milton Gonçalves) não adicionam em nada, soando deslocada do conjunto. Mas se ao menos a direção do José Eduardo Belmonte tivesse o mínimo de coerência, algo poderia ter se salvado, mas não foi o caso. Billi Pig é um filme desconjuntado, que muitas vezes não consegue encadear uma sequência lógica de cenas. Como no momento, durante o clímax, onde o casal Wanderley e Marivalda foge da casa do traficante - durante o dia - para na cena seguinte aparecerem dentro de uma feira aleatória à noite. Ou na cena (que deveria ter ficado no chão da sala de edição) onde um funcionário do hotel profere um daqueles discursos motivacionais manjados para a Marivalda que, na cena seguinte, já aparece em outra locação e interagindo com outros personagens, sem nenhuma ligação com o que havia acontecido imediatamente antes. Belmonte falha até quando precisa construir um mínimo de suspense: afinal, qual a finalidade de colocar dois personagens temendo pelos seus destinos em frente a um fundo preto (como se algo fosse ser revelado a partir dali), quando em seguida eles já aparecem tranquilos subindo uma escada? Mas o fundo do poço acaba sendo um dos product placement mais absurdos dos últimos tempos (no nível daquele existente em Noite de Ano Novo), com Grazi Massafera exibindo o cartão de crédito de uma certa operadora do modo gratuito possível por longos segundos.&lt;br/&gt;Ainda finalizando com um momento digno de cena de encerramento da novela das 8 (elenco reunido e dançando ao som de uma apresentação do Arlindo Cruz), Billi Pig é um erro de grandes proporções. Que José Eduardo Belmonte reencontre seu talento no caminho de volta ao seu antigo estilo, pois essa sua incursão pela comédia foi uma catástrofe.</description>
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      <title>Festival do Júri Popular</title>
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      <pubDate>Thu, 8 Mar 2012 20:26:59 -0300</pubDate>
      <description>&lt;a href=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Entradas/2012/3/8_Festival_do_J%C3%BAri_Popular_files/droppedImage_1.jpg&quot;&gt;&lt;img src=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Media/object001_6.jpg&quot; style=&quot;float:left; padding-right:10px; padding-bottom:10px; width:193px; height:129px;&quot;/&gt;&lt;/a&gt;Por Luis Fernando Pereira&lt;br/&gt;Semana passada (23 a 28 de fevereiro) a cidade de Salvador foi palco da quarta edição do Festival do Júri Popular, evento onde cerca de 30 filmes de curta-metragem concorrem em oito categorias e quem escolhe os vencedores é o público. Como as exibições ocorrem em diversas cidades e em diversas datas, ainda não foram revelados os ganhadores oficiais, mas certamente em cada um dos locais do evento os espectadores já escolheram seus favoritos. E são muitos os trabalhos dignos da estatueta de melhor curta-metragem, vale menção.&lt;br/&gt;Para esta edição foram aceitos projetos lançados entre os anos de 2010 e 2011, transformando assim o festival em um importante registro do que vem sendo produzido de mais interessante no cinema atual, ao menos no que tange o mercado de curtas.&lt;br/&gt;Falando um pouco da estrutura oferecida aqui em Salvador, diria que o evento ainda precisa ganhar certo fôlego para se inserir de modo mais incisivo na agenda de cinema da cidade. O local até que não compromete muito o evento, já que a sala Walter da Silveira possui uma importância simbólica bem grande para a comunidade cinéfila soteropolitana. Contudo, seus equipamentos ainda estão um pouco a dever, necessitando de uma boa reforma para quem sabe voltar a viver os bons tempos já antes vividos. &lt;br/&gt;Outro problema detectado diz respeito com a comunicação, mais estritamente a divulgação que o festival teve nas mídias locais. É bem visível que falta um trabalho mais estratégico da assessoria de comunicação da SECULT/DIMAS (a sala é de propriedade do governo estadual) para levar público aos seus cinemas, pois o que se viu, ao menos nos três primeiros dias, foi a sala esvaziada em quase todas as sessões. Triste constatação.&lt;br/&gt;Mais triste que isso foi verificar que em uma sala com pouco mais de cinco espectadores, pessoas ainda se predispõem a conversar durante a exibição dos filmes. Está se tornando um problema mais que crônico essa falta de educação do público consumidor de cinema na cidade. Acredito que não seja tão diferente no resto do país.&lt;br/&gt;Mas deixando as notas tristes de lado, vamos falar dos projetos exibidos, que foram em grande maioria no mínimo bons. Alguns se sobressaíram, como por exemplo, Praça Walt Disney, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira. Este curta saiu-se vencedor da última edição do Festival Internacional Panorama Coisa de Cinema, mas naquela época não tinha ainda percebido a força narrativa que ele possui. Um trabalho muito bem produzido, que trabalha temáticas bem interessantes e que aliado a isso faz um competente trabalho de câmera, com algumas tomadas muito bem construídas.&lt;br/&gt;Outro bom trabalho exibido foi Náufragos, de Matheus Rocha e Gabriela Amaral Almeida. Gabriela - baiana radicada em São Paulo - já mostrou a que veio com seu outro projeto, Uma Primavera, excelente filme sobre o desabrochar da adolescência na perspectiva de uma menina. Em Náufragos ela continua com seu trabalho de contar histórias com abertura para metáforas da vida. Belo curta-metragem.&lt;br/&gt;Outro merecedor de elogios é Oma, de Michael Wahrmann. Oma trata da relação existente entre duas pessoas que não se entendem por conta das diferenças de língua (português e alemão), mas que definitivamente se gostam. Uma história que ganha muito por conta da personagem principal, a Oma (avó, em alemão). Belo e sensível filme. &lt;br/&gt;Há de se destacar também que além do curta de Gabriela Amaral, somente mais um dos projetos é originário da Bahia. Sala de milagres, de Cláudio Marques e Marília Hughes, trabalho que representa muito bem o cenário baiano. Mas esperemos que na próxima edição haja mais que dois representantes do Estado.&lt;br/&gt;Alguns trabalhos servem como documento histórico bem relevante, como Meia hora com Darcy, de Roberto Berliner. Outros ganham pontos por sua ousadia narrativa, como Dona Sonia pediu uma arma para seu vizinho Alcides, de Gabriel Martins. Já Ovos de dinossauro na sala de estar, de Rafael Urban, realiza um trabalho de direção de arte dos mais competentes. De saltar os olhos. Muitos outros merecem elogios, como o premiado Licuri Surf, de Guilherme Martins, mas para não me alongar muito, me restringirei a estes já comentados. &lt;br/&gt;Não restam dúvidas que o Festival do Júri Popular já possui grande importância para os grupos que vivenciam mais intimamente o cinema. Falta-lhe agora ganhar massa muscular nas cidades em que são exibidas as programações. Ao menos em Salvador ainda falta. E o festival merece ser visto. Muito bem visto, pois ele é ótimo.</description>
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      <title>Tão Forte e Tão Perto</title>
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      <pubDate>Thu, 8 Mar 2012 20:25:38 -0300</pubDate>
      <description>&lt;a href=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Entradas/2012/3/8_T%C3%A3o_Forte_e_T%C3%A3o_Perto_files/To%20Forte%20e%20To%20Perto.jpg&quot;&gt;&lt;img src=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Media/object000_4.jpg&quot; style=&quot;float:left; padding-right:10px; padding-bottom:10px; width:182px; height:128px;&quot;/&gt;&lt;/a&gt;Por Rafael Carvalho&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Eu que acho Billy Elliot um filme adorável e As Horas sensacional em sua proposta carregada de melancolia e dor, vi o talento de Stephen Daldry sendo minimizado no forçado O Leitor, mas principalmente nesse seu mais novo trabalho. Choroso ao extremo, exagerado, gritante e apelativo, com aquele tom misto de tema socialmente importante e história emotiva, Tão Forte e Tão Perto é uma nulidade disfarçada de filme sério com tema nobre.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;O início do longa até que prometia uma abordagem que seria bastante bem-vinda: a história de um garoto que, para tapear o luto pelo pai morto no atentado às Torres Gêmeas, inventa em sua mente uma aventura mirabolante envolvendo a chave de um lugar secreto que precisa ser descoberto seguindo as pistas deixadas por seu pai. Esse ar de aventura descabida, tão pertinente à imaginação infantil, parecia um prato cheio para se falar de assunto tão espinho por um viés diferente e até mais sensível. E o início do filme acrescenta muito vigor a essa quase “proposta”.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Mas tudo isso desmorona quando o filme resolve emocionar a todo custo e dar conta de      um certo sentimento de compaixão a um povo marcado pelo terrorismo que tão barbaramente atingiu aquela sociedade aparentemente blindada. Seria, portanto, um filme de alma essencialmente norte-americana (feito por um diretor inglês), que tenta alcançar a universalidade por seu apelo emocional. E o que havia de lúdico em seu início, se tornou a história do garotinho que, buscando encontrar o lugar a ser aberto pela chave misteriosa deixada pelo pai, vai lidando com a dor da perda da forma mais chorosa possível.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;É pra isso que servem, narrativamente, os personagens adultos que cruzam o caminho de Oskar (Thomas Horn). O mais prejudicado deles é Max von Sydow, interpretando um estranho senhor que não fala (o trauma do passado que o fez ficar mudo será logo apresentado) e que se comunica através de bilhetes. A composição von Sydow para esse homem misterioso é ótima (gratamente indicada ao Oscar), toda expressão corporal de um ator experiente. Pena que esteja a serviço de um personagem que só está ali para soar estranho e exótico, não convencendo muitos em suas razões para ajudar o garoto e muito menos quando se questiona suas origens.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Da mesma forma, outros personagens entram no enredo como suporte para a busca de Oskar. Viola Davis, que já começa no filme chorando sem que se saiba por que (motivos serão revelados no final, também aos prantos) é mais um caminho para a emoção aflorar. Não vai tardar também para que a mãe do garoto (vivida por uma surpreendente Sandra Bullock) receba sua cota de pieguice para completar o drama familiar que se institui no lar com a tragédia.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Mas há principalmente uma série de outros personagens (outras pequenas histórias) que surgem a partir da trajetória de Oskar em busca da verdade deixada pelo pai, todos ligados de alguma forma ao sentimento de compaixão pelos que sofreram diretamente com os atentados terroristas. E é como se o filme jogasse baixo ao apelar para o sentimento do público em prol desse drama difícil ignorar, porque é ferida forte na sociedade norte-americana, principalmente ao envolver um garotinho órfão e inteligente.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Daldry filma tudo num ritmo ágil, revelando as manias e particularidades de Oskar (como o irritante chacoalhar de um pandeiro que, segundo o personagem, o deixa mais calmo) em busca de uma simpatia para com esse garoto e para sua busca ingênua. Essa candura em excesso acaba virando contra o próprio filme, com tanto choro tentando ser metido goela abaixo do espectador. Até a bela música de Alexandre Desplat, com poucas doses de pieguices, é sabotada pelos momentos de comiseração. Enfim, um filme que faz muito barulho por tão pouco.</description>
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      <title>O Espião que Sabia Demais</title>
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      <pubDate>Thu, 23 Feb 2012 07:22:33 -0300</pubDate>
      <description>&lt;a href=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Entradas/2012/2/23_O_Espi%C3%A3o_que_Sabia_Demais_files/Espio%20que%20Sabia%20Demais.jpg&quot;&gt;&lt;img src=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Media/object001_7.jpg&quot; style=&quot;float:left; padding-right:10px; padding-bottom:10px; width:182px; height:128px;&quot;/&gt;&lt;/a&gt;Por Rafael Carvalho&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Sendo O Espião que Sabia Demais um filme que exala frieza e certa melancolia, o diretor sueco Tomas Alfredson parecia o candidato ideal para dirigir essa adaptação do romance homônimo do escritor John le Carré. O diretor exercita seu estilo objetivo e centrado, bem ao gosto nórdico, algo que já havia demonstrado com louvor no ótimo Deixa Ela Entrar. Mas agora, estamos na Londres dos anos 70 quando o clima soturno da Guerra Fria assombrava as relações conflituosas entre capitalistas e comunistas.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Engana-se quem espera do filme doses de ação. Ao contrário, valoriza-se aqui uma investigação psicológica, complexificada por um roteiro repleto de personagens, indo e voltando no tempo para compor o mosaico de acontecimentos que giram em torno do caso do espião duplo infiltrado no serviço secreto britânico. Dentro desse contexto, é bastante pertinente que a narrativa seja mais branda, sem adrenalina, já que o próprio conflito é de cunho ideológico.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Pois é como se O Espião que Sabia Demais fosse um filme calculado, embora isso nada tenha de pejorativo. Existe cuidado na forma como se cria uma atmosfera tanto de desânimo e opressão (tudo parece muito mórbido e desinteressante, triste mesmo), como também de tensão constante já que estamos no campo das intrigas de espionagem em que tudo e todos soam suspeitos. Daí que não surpreende que George Smiley (Gary Oldman), ex-agente agora contratado pelo governo para descobrir a identidade do espião infiltrado, passa a ser, ele próprio, um dos suspeitos.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;É um filme que exige atenção do expectador para uma história que vai se encaixando aos poucos, sem mastigar informações. Há muita coisa não dita, mas que se compreende pelo decurso das imagens. A cada nova sequência vamos acompanhando os motivos pelos quais a história do agente duplo vem à tona, assim como também descobrimos particularidades, fraquezas e anseios dos próprios personagens envolvidos na intriga. Eles vivem num universo em que vida profissional interfere diretamente na pessoal, fazendo deles, muitas vezes, homens tristes que abrem mão de sua própria liberdade para servir certos ideais (sejam do país de origem ou não).&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Não à toa, a música triste de Alberto Iglesias embala a narrativa acentuando mais a melancolia reinante naquele ambiente de desavenças e desconfiança do que uma investigação frenética, como era de se espera num filme de espiões. Por isso, trata-se de um trabalho insólito, chamando atenção justamente por esse aspecto conceitual, refinado na sua composição formal e dura.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;É também um espetáculo de atuações. Todo o elenco, composto em sua maioria por homens, exala sobriedade, uma vez que não existem momentos de catarse, muito ao modo contido inglês de ser, apesar do perigo que ronda a vida de todos. O que existem são pessoas em estado constante de vigilância e suspeita. Além disso, toda a produção técnica é muito estilosa, desde a direção de arte cuidadosa à fotografia pálida que acentuam ainda mais o tom melancólico daquele mundo desolador. Daí, o filme ser tão charmoso, assim como deprimente, tenso, frio. Adjetivos que dificilmente caracterizam uma mesma obra. Por isso é um filme raro.&lt;br/&gt;</description>
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      <title>A Invenção  de Hugo Cabret</title>
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      <pubDate>Wed, 15 Feb 2012 12:54:11 -0300</pubDate>
      <description>&lt;a href=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Entradas/2012/2/15_A_Inven%C3%A7%C3%A3o_de_Hugo_Cabret_files/Hugo%20Cabret.jpg&quot;&gt;&lt;img src=&quot;http://www.coisadecinema.com.br/coisadecinema/coisadecinema/Media/object005_2.jpg&quot; style=&quot;float:left; padding-right:10px; padding-bottom:10px; width:182px; height:128px;&quot;/&gt;&lt;/a&gt;Por João Paulo Barreto&lt;br/&gt;Na infância, lembro que um dos primeiros filmes que vi foi E.T. Depois vieram os filmes dos Trapalhões. Com pouco mais de dez anos, assisti a Império do Sol. Esse foi o marco zero de minha cinefilia. Foi a partir desse filme que comecei a criar minha cultura cinematográfica, a assistir a filmes instigado por tudo o que eles teriam a me oferecer e a encarar o cinema como uma forma de arte. “Um lugar onde a mágica acontece”. Hoje eu ouvi essa frase ser proferida por ninguém menos que George Méliès, o ilusionista francês que pode ser considerado o criador do cinema como arte, como uma forma de totalmente inovadora de se contar histórias. E me senti um felizardo pelo amor que nutro pela Sétima Arte.&lt;br/&gt;Sim, foi da própria pessoa de Méliès que escutei essa frase ser dita. Isso aconteceu durante a projeção de uma das mais apaixonantes declarações de amor ao cinema que um diretor poderia construir. A Invenção de Hugo Cabret, novo filme de Martin Scorsese, não tem Ben Kingsley no papel do mágico francês. Ele TEM o próprio Méliès interpretando a si mesmo. Ao ouvir Kingsley conversar com um garoto e dizer, em frente a um cenário de cinema, que aquele é o local onde a mágica acontece, me fez perceber duas coisas: uma é justamente o fato de que a personificação do ilusionista por Sir Ben Kingsley equipara-se ao seu trabalho em Gandhi; a outra reside na  constatação plena da importância que o cinema possui na vida de Scorsese e em como somos sortudos por termos esse diretor como alguém disposto a compartilhar seu amor, conhecimento e talento por esse tipo de representação artística. &lt;br/&gt;Hugo pode ser considerado o primeiro filme realmente feito de forma a tornar o 3D uma ferramenta de contribuição para a narrativa e não apenas um artifício visual do longa. Claro, muitos podem afirmar que a mesma intenção e resultado podem ser vistos em Avatar. Isso é um fato. No entanto, o filme James Cameron é calcado em cenas de ação, explosões e em elementos baseados na velocidade que a obra possui, algo que com o 3D é, obviamente, supervalorizado. Em Hugo, Scorsese foi além. O filme utiliza essa tecnologia baseada em elementos apresentados de forma sutil, como, por exemplo, o pêndulo de relógios, suas engrenagens, fumaça e até mesmo o movimento dos atores em cena. Sim, a própria mise en scène foi construída de modo a destacar o 3D. Surpreendente!&lt;br/&gt;Não que os elementos marcantes na filmografia do diretor ítalo-americano não estejam lá. Os travellings na estação de trem de Paris já demonstram a sua assinatura, do mesmo modo que os planos-sequência, como o arrebatador que abre a produção, já nos remetem a diversos momentos da carreira de Scorsese. Além disso, lá está o homem atormentado, se sentindo fora do eixo do mundo, mas que tenta se adaptar a ele de um modo que se perceba bem vindo. A diferença é que, dessa vez, não é um insone e violento taxista, ou um boxeador misógino e ciumento, ou até mesmo Jesus Cristo. Agora, o atormentado é um garotinho órfão, filho de um relojoeiro, e que passa os dias escondido nas estranhas da estação de trem parisiense a dar manutenção nos relógios e a praticar pequenos furtos para sobreviver. &lt;br/&gt;Hugo (Asa Butterfield) tenta reconstruir um boneco autômato encontrado pelo seu pai (Jude Law) e que contém um segredo que poderá mudar sua vida. Nesse intuito, acaba conhecendo o melancólico George (Kingsley), um amargurado comerciante da estação que possui uma trajetória de vida que tenta esquecer por conta das decepções passadas. Será através de George que Scorsese construirá essa brilhante homenagem ao cinema. Através de flashbacks, conheceremos os bastidores das gravações de clássicos do cinema mudo, como O Reino das Fadas, curta de 1903, no qual o próprio Méliès atuou. O modo como Scorsese revelou o segredo das técnicas do precursor francês torna o filme uma verdadeira declaração ao cinema. Truques de montagem como o que mostra como eram feitas as cenas de desaparecimento de personagens ou a forma como o diretor usava uma estufa para gravar as cenas, de modo a permitir o aproveitamento por completo da luz ambiente, demonstram o pioneirismo e a genialidade de Méliès. &lt;br/&gt;A Invenção de Hugo Cabret é uma obra meticulosa, construída de modo minimalista, algo que confirma o status de gênio de Scorsese. Repleto de momentos marcantes, como a belíssima fusão envolvendo a vista aérea de Paris na cena de abertura ou a expressão de certo personagem durante um tocante clamor feito entre lágrimas, o filme cativa o espectador de forma arrebatadora. Além disso, a trilha sonora de Howard Shore figura entre os momentos mais brilhantes de sua carreira. De fato, desde O Senhor dos Anéis que o maestro não apresentava um trabalho tão impecável.. &lt;br/&gt;Posso afirmar com toda a segurança e sem medo algum de parecer clichê que, com Hugo, Scorsese adicionou mais uma obra prima ao seu currículo. E como é maravilhosa a sensação de sair do cinema sentindo-se bem, sentindo-se nutrido por uma paixão que apenas verdadeiros gênios como Méliès e Scorsese são capazes de transmitir. Hoje posso lhes dizer que me senti, novamente, como aquele garoto que não existe mais; aquele menino que, aos dez anos, se apaixonou pelo cinema e tenta absorvê-lo e compreendê-lo desde então.</description>
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